CARREGADORES DE PIANOS
1. Este inverno não deixa saudades. Os recentes temporais e chuvas diluvianas provocaram danos avultados, destruição de edifícios, derrube de linhas de energia, desmoronamento de pontes, devastação de estradas e vias-férreas…
As obras de reconstrução vão durar anos, consumir vultosos recursos financeiros e empenhar abundante mão-de-obra, numa altura em que o sector da construção civil já vinha enfrentando um manifesto défice de trabalhadores.
Para colmatar esta carência, o governo admitiu priorizar o recrutamento de trabalhadores que já se encontram em Portugal, até por não haver, segundo as empresas do ramo, uma “necessidade de escala larga” de angariar mão-de-obra estrangeira. Se esta, todavia, vier a revelar-se imprescindível, estão garantidos – assegura o governo – “canais adequados para suprir as necessidades.”
2. Os europeus, em geral, desdenham trabalhos pesados, supondo-se fadados para mais altos voos. Ora, a reparação dos edifícios arrasados não sucede por geração espontânea. Nem pontes e estradas se reerguem sozinhas. E o conserto das infraestruturas básicas não acontece por obra e graça do espírito santo. Alguém tem de escavar valas, faça chuva ou faça sol. Alguém tem de montar tapumes, movimentar entulhos, içar sacos de areia e cimento, implantar estacas, trepar andaimes…
3. Já aconteceu antes. E voltará a suceder. A construção do Parque das Nações, por ocasião da EXPO 98, e dos estádios para o EURO 2024, gerou na altura uma necessidade premente de mão-de-obra, estimulando novos fluxos migratórios, com origem, sobretudo, na Ucrânia e na Moldávia. E a barragem do Alqueva, que criou o maior lago artificial da Europa, deu emprego a 15 mil pessoas de 25 distintas nacionalidades.
4. O recurso à mão-de-obra estrangeira, na imediata sequência de uma calamidade, tem precedentes: após o devastador terramoto de 1755, em Lisboa, que arrasou 10 mil edifícios e causou 90 mil mortos, os trabalhadores estrangeiros (maioritariamente galegos) assumiram uma importância crucial, integrando o conjunto de 45 mil operários envolvidos nos trabalhos.
5. As obras de remoção dos escombros e de edificação da nova Baixa Pombalina atraíram um intenso fluxo migratório da Galiza, onde o emprego era escasso e mal remunerado, tornando os galegos (que constituíam, então, a principal comunidade estrangeira em Lisboa) a base da força de trabalho braçal. Serviram como pedreiros, cabouqueiros, serventes, alvenéis, aguadeiros e carregadores. Aliás, ao longo do século XVIII, a força de trabalho dos galegos foi importante na construção de duas outras obras monumentais: o aqueduto das Águas Livres e o Convento de Mafra.
6. Para sobreviverem em terra alheia, os galegos, trabalhadores incansáveis e humildes, abraçaram ofícios variados, assentes no esforço e na resistência física. Numa época sem elevadores nem canalizações urbanas, foram “aguadeiros”, distribuindo ao domicílio a água recolhida nos chafarizes. No século XIX e durante o primeiro quartel do século XX, subsistiram como fiáveis e discretos moços de recados, afoitos auxiliares no combate a incêndios e possantes carregadores manuais de móveis pesados. Comentava-se, até, que o galego “não faz cara a um carrego de 10 arroubas”, que o mesmo é dizer: não recusa carregar 150 quilos de peso.
Quando em grupo, os galegos abalançavam-se, unicamente à força de braços e sem qualquer auxílio mecânico, a transportar pianos, alguns dos quais podiam pesar 700 quilos, subindo pelas íngremes, estreitas e sinuosas escadas de velhos prédios lisboetas.
Em 1882, uma jornalista francesa escrevia: “….em todas as esquinas das ruas de Lisboa, deparam-se moços de fretes e recados e aguadeiros, oriundos da Galiza. (…) São montanheses robustos, pacientes, corajosos, que não se recusam a nenhum trabalho penoso a troco de algumas moedas de cobre, aumentando assim o seu pequeno tesouro que vão mandando para o torrão natal, com o fim de comprarem algumas jeiras de terra. Gozam da fama de honestos, merecidamente adquirida…”
7. O mais curioso é que, no início do século XX, encontramos em algumas cidades brasileiras (Recife, Belém do Pará), idêntico método de transporte de pianos a cargo de imigrantes. Com uma particularidade: são imigrantes portugueses, igualmente humildes e esforçados, trabalhando “que nem galegos”…
Leia-se este relato: “Esses portugueses eram os numerosos “carregadores” que ficavam pelas esquinas à espera de serem contratados para esses e outros serviços, rodilha na cabeça, pés geralmente descalços ou usando tamancos de madeira, roupa humilde gasta pelo uso. Eles e os “carroceiros” eram os mais pobres dentre todos os imigrantes lusitanos. Ordinariamente analfabetos, rudes, mas de extrema honestidade. (…)
Nos dias de leilão (…) postavam-se às portas das casas leiloeiras esperando ser contratados para transportar os móveis e demais objectos adquiridos até ao endereço dos compradores. (…) Mobílias com numerosas peças iam, geralmente, de carroça. Mas o máximo feito dos carregadores era carregar pianos que mudavam de mãos. Pianos de cauda ou meia cauda eram raros…(…) Para esses eram necessários seis carregadores, de altura equivalente, que levantavam o piano a uma só vez e o depositavam nas seis rodilhas nas suas cabeças, e logo saíam a caminhar em ordem unida: esquerda, direita, esquerda, direita…(…)
Para os pianos mais comuns, modelo “estante”, a técnica consistia em deitá-los de costas mas sem tocar no chão e assim, com um impulso bem sincronizado, alçá-lo até às cabeças ou ombros. Daí em diante, era idêntico. Era idêntico, também, o préstito que logo se formava ao redor do piano carregado e dos seus carregadores: uma chusma de “moleques” que se divertiam em atanazar os pobres trabalhadores, dirigindo-lhes piadas, fazendo-lhes caretas, os mais afoitos beliscando-os por trás, todas as artes a que podiam recorrer para levá-los à desconcentração e destempero. Mas eles continham-se, por dever de ofício, embora fervessem por dentro.” (Armando Dias Mendes, in “A Cidade Transitiva”).
8. A propósito de pianos – protagonistas deste texto -, não vislumbro melhor desfecho para a crónica do que recordar “Ebony and Ivory”, inspirador hino à harmonia entre raças, simbolizadas nas cores branca e preta das teclas, composto por Paul McCartney há mais de quarenta anos:
“Ebony and ivory live together in perfect harmony Side by side on my piano keyboard, oh Lord, why don’t we?”
Zépestana | 18 fev 2026