O PAPA FRONTEIRAS

São geralmente apontados como pioneiros da livre circulação de pessoas os chamados “pais fundadores” da União Europeia (Jean Monnet, Robert Schuman e Paul-Henri Spaak).
Talvez não seja bem assim.
Muito antes de ser assinado, em Roma, no ano de 1957, o tratado que instituiu a Comunidade Económica Europeia e consagrou o princípio da livre circulação de pessoas; e bem antes de ser firmado o acordo que, em 1985, definiu o Espaço Schengen, abolindo os controlos nas fronteiras internas entre os países signatários -, já alguém se tinha atrevidamente antecipado, usufruindo de antemão dessa almejada liberdade de circulação, actualmente desfrutada por milhões de cidadãos europeus.
Esse vanguardista visionário, precursor do livre trânsito pelo território europeu, tem um nome: Pai Natal, aka Papai Noel, aliás Santa Claus, aka Saint Nick, aliás Kris Kringle, aka Père Noël, aliás Weihnachtsmann, aka Sinterklaas, aliás Babbo Natale, aka Ded Moroz, aliás Viejito Pascuero , aka San Nicolás, aliás Joulupukki, natural da Finlândia e morador perto de Rovaniemi, mais precisamente em Napapiri.
Figura singular de cidadão do mundo, de andarilho global, de verdadeiro globetrotter, o Pai Natal bem merece o epíteto de “papa-fronteiras”.
Personalidade insubmissa e libertária, nunca, que se saiba, se deu ao trabalho de obter o brevê, mas nem isso o impediu de pilotar e conduzir, pelos céus, um trenó voador. E a verdade é que sempre se tem desenrascado, sem acidentes de monta, ziguezagueando no firmamento por entre drones erráticos, satélites de telecomunicações, cometas, pombos correios desorientados e mísseis balísticos intercontinentais.
Numa única noite, este velhinho gorducho, de indumentária vermelha (inspirada na Capuchinho, outra destrambelhada) percorre cento e noventa e cinco países, puxado por nove turbo-renas que se tornaram voadoras depois de contagiadas pela gripe das aves. Claro está que, numa só madrugada, não sobra tempo, nem por sombras, para o preenchimento de formalidades aduaneiras. Muito menos para carimbar o passaporte.
Isso explica o comportamento desembaraçado do Pai Natal que, ao avistar, lá do alto, um qualquer posto de fronteira, saúda os guardas e funcionários alfandegários com um cordial manguito natalício, acompanhado do inevitável Hô, Hô, Hô, retribuído por acenos calorosos e um ou outro festivo pirete.
Para quem não saiba: desde há exactamente setenta anos, a partir de 1955, que o Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte segue, a par e passo, a viagem de circum-navegação do velhinho das barbas, não vá o diabo tecê-las.
Mais recentemente, a Google criou uma página (Google Santa Tracker) que permite rastrear, em tempo real, a rota do Pai Natal. Se o leitor quiser intervalar as filhoses e rabanadas da Consoada com intermitentes pesquisas no telemóvel, já sabe como ir acompanhando, ao vivo, o trajecto nocturno do papa-fronteiras, ao som de Jingle Bells.
Para todos quantos tiveram a paciência de ler esta crónica até ao fim, os meus sinceros votos de Feliz Natal e de um próspero Ano Novo, com saúde, promoções, feriados e pontes, aumentos salariais e alegria.
Zépestana | 20 dez 2025