FRONTEIRAS FESTIVAS
1. Imagine, por um momento, um estádio com bancadas que acomodam trinta mil pessoas.
Agora, imagine que esse recinto é literalmente cortado, ao meio, por uma fronteira, sem que essa bizarra singularidade atrapalhe o espectáculo que ali decorre, e sem que os espectadores, de ambos os lados, fiquem privados de nele simultaneamente participar.
2. Um estádio lotado, mas bipartido entre dois países vizinhos?
Cheira a ficção…
Um espectáculo organizado em plena fronteira?
Parece fantasia…
E no entanto, sucede.
3. Chamam-lhe “beating retreat” e ocorre todos os dias desde 1957, ao pôr do sol, na fronteira Wagah-Attari, entre a Índia e o Paquistão, tendo por protagonistas forças de segurança da Índia (Força de Segurança da Fronteira) e do Paquistão (Rangers do Paquistão).
A cerimónia, presenciada por multidões entusiasmadas, culmina no arriar simultâneo das bandeiras de ambos os países e configura, do mesmo passo, um espectáculo de afirmação patriótica de soberania e de predisposição para uma ordeira relação de vizinhança.
4. Neste evento (que pode ser apreciado em https://www.youtube.com/watch?v=O9q3uXsSlt4), são os chamativos uniformes militares que primeiramente captam a atenção dos presentes. Embora longe do colorido espalhafato dos guardas suíços do Vaticano, ou do inusitado traje das tropas escocesas, ataviadas de kilt e gaita de foles, estes soldados exibem, com garbo e panache, fardas de esmerado recorte, escuras as dos muçulmanos paquistaneses, claras as dos sikhs indianos.
Detalhe incomum, nuns e noutros, é a boina encimada por uma espécie de leque, destinado a simular, à distância, uma maior altura, e a aparentar superioridade física. Estratagema antigo, este postiço alongamento da silhueta, igualmente reconhecível nos granadeiros britânicos, portadores de enormes chapéus pretos de pelo de urso no “Trooping the Colour”.
Ao longo da cerimónia do “beating retreat” , desenvolvem-se marchas, passos e manobras rigorosamente coreografadas, que ninguém estranharia se tivessem a assinatura de Filipe La Féria. Ou se tivessem origem em Hollywood. O preciso sincronismo dos movimentos lembra o voo, uníssono e alinhado, dum bando de estorninhos.
5. Sucedem-se, dum lado e doutro, em rigoroso paralelismo, os gestos provocadores dos militares que, virados para o território vizinho, encenam comportamentos teatrais de intimidação, agitando os punhos, vocalizando gritos bélicos, assentando ruidosamente os pés no chão ou batendo com os punhos no peito entufado (como – salvaguardadas as devidas distâncias – fazem os gorilas, numa exibição de força e marcação do território).
Uma tão assanhada linguagem corporal serve para desencorajar qualquer veleidade expansionista por parte da vizinhança. Como o chocalho da cobra cascavel, a preventiva mensagem é clara: “Nem penses! Quem te avisa, teu amigo é!”
Neste extenso repertório, de gestos bruscos e vigorosos, destaca-se um movimento só ao alcance de calejados contorcionistas: o súbito levantar de uma das pernas, o mais alto possível, de forma a quase tocar o nariz na ponta da bota, fazendo lembrar, em versão máscula e beligerante, o Folies Bergère, as Ziegfeld Follies ou as ágeis Rockettes, coristas do Radio City Music Hall.
Já para não falar, noutro contexto, da silly walk do desengonçado John Cleese, dos Monty Python.
Com a chegada da noite, tudo termina no lento e simultâneo arriar das bandeiras de ambos os países, um cordial aperto de mão entre dois dos militares e o encerramento dos pesados portões de ferro que asseguram a impermeabilidade da fronteira.
6. Quem já tenha lido “Esta Noite a Liberdade”, de Dominique Lapierre e Larry Collins, não ignora as dolorosas circunstâncias que presidiram à “Grande Partição”, o coincidente nascimento da Índia e do Paquistão, em 1947, na sequência dos conflitos religiosos e políticos entre hindus e muçulmanos, originando a trágica migração de milhões de pessoas em curtíssimo espaço de tempo.
Desde então, cresce o longo historial de rivalidades entre ambos os países, nalguns casos com hostilidades declaradas, mormente na disputada região da Caxemira, provocando milhares de mortos.
Assim sendo, que ambas as nações (para mais, potências nucleares) tenham encontrado uma forma de sublimar os seus potenciais de agressividade, canalizando-a para o faz-de-conta e as inofensivas práticas simbólicas deste “happening” performativo na fronteira de Wagah-Attari, só pode merecer aplauso e alívio.
A Humanidade agradece.
Zépestana | 03 fev 2026