FRÍGIDAS FRONTEIRAS
“Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar…”.
1. Quem não conhece este verso, entoado por Rui Veloso na canção “Não há estrelas no céu”?…
Fora do contexto musical, “está um frio de rachar” bem poderia ser o arrepiado desabafo dum português médio, entre Setembro e Junho.
Mal sopra uma brisazinha menos tépida, apressamo-nos a dramatizar temperaturas amenas e a fantasiar rigores térmicos, como se vivêssemos na Lapónia, rodeados de ursos, renas e auroras boreais.
Espirramos só de abrir o frigorífico e evitamos uma ida ao cinema, para ver o “Frozen” ou o “Doutor Jivago”, não vá irromper uma fatal pneumonia.
Até os provérbios nacionais contribuem para a “criofobia”, o medo intenso do frio: “Abafa-te, abifa-te e avinha-te” é a infalível receita da sabedoria popular para prevenir males maiores durante o inverno. E a obsessão por enchumaçados agasalhos manifesta-se noutras máximas: “Usa sempre um cobertor, faça frio ou calor”…; “…. Em janeiro, sete casacos e um sombreiro.”
Estamos em pleno Inverno e o leitor, muito provavelmente, encontra-se de gorro atarraxado até às orelhas, pantufas e cachecol, enroscado num sofá, envolto em mantas felpudas, à beira duma lareira ou dum ar condicionado.
Razão teve Mark Twain, quando escreveu: “O inverno é o período em que tentamos manter a casa tão quente quanto ela estava no verão, quando nos queixávamos do calor.” Ou, para citar um anónimo rendido às cabalas populistas: “Está tanto frio que até os políticos enfiam as mãos nos seus próprios bolsos.”
2. Mas convenhamos: com raras excepções (o alpinista João Garcia e uns quantos pastores da Beira Alta e Trás-os-Montes), o português comum ignora o que é o verdadeiro frio. Sobretudo o português urbano (e reparem como, por ser inverno, me fugiu instintivamente a pena para “sobretudo”, quando podia ter escolhido outro advérbio equivalente).
Quis o destino que Portugal se situasse numa baixa latitude, no sudoeste da Europa, à beirinha do continente africano, gozando de um moderado clima mediterrâneo. Também a orografia do país é generosa, com relevos de baixa e média altitude e neves raras, às quais não estamos habituados.
Por isso se explica o êxito, nos anos oitenta do século passado, da reciclagem dum trava-línguas em canção popular: “Se cá nevasse, fazia-se cá ski.”
Compreende-se, assim, que os nossos compatriotas não troquem a Quarteira pela Sierra Nevada.
Nem substituam o cabrito assado pela raclette, ou a chanfana pelo fondue.
E não espanta que nunca tenham posto os pés em Chamonix (que muitos pensam ser primo do Asterix) nem nas Dolomitas (montanhas), que confundem com as Carmelitas (freiras).
3. Frio, frio mesmo, frio a sério, de bater o dente, com temperaturas desumanas, esse pode ser encontrado nas mais altas fronteiras do planeta.
Desterrados em locais inóspitos e isolados, vergados à inclemência do clima, guardas de fronteira e funcionários aduaneiros (sobre)vivem e laboram em condições de extrema dureza, expostos aos nevões, ao frio siberiano que trespassa os ossos e ao vento assanhado e áspero. Esses sim, podem legitimamente bradar, se o cieiro nos lábios o permitir: “Está um briol…! Mas que griso!…”
Na alta montanha, a neve oculta perigos invisíveis, ravinas medonhas, os ventos sopram furiosamente e o espesso nevoeiro reduz drasticamente a visibilidade. O ar é cortante e o oxigénio rarefeito, dificultando a respiração. O risco de avalanches está sempre presente. O da hipotermia também. E a exposição dos dedos ou do nariz ao frio extremo, mesmo por breves minutos, pode provocar a necrose dos tecidos e a sua amputação.
4. Muitas das mais elevadas fronteiras do mundo situam-se, sem surpresa, em duas míticas cordilheiras: a dos Himalaias e a dos Andes.
A fronteira natural mais alta do planeta divide a China e o Nepal, cruzando o cume do Monte Everest (8.848 metros), embora não exista aí, obviamente, um posto de controlo. No topo, as neves são eternas e as temperaturas permanentemente negativas. A chamada passagem de Khunjerab separa o Paquistão da China e detém o recorde de posto fronteiriço mais alto do mundo: 4.693 metros acima do nível do mar.
Imagine-se o tormento de patrulhar áreas acidentadas, numa altitude de 6.700, palmilhando veredas íngremes e caminhos sinuosos escondidos pelo denso tapete de neve. É o pesadelo reservado aos militares chineses e paquistaneses que, dum lado e doutro da fronteira, vigiam os Himalaias, submetidos a temperaturas abaixo de 40 graus negativos. Ainda assim, “mais quentinho” que o estreito de Bering, a “cortina de gelo” que separa a Rússia dos Estados Unidos e onde a temperatura desce até aos 50 graus negativos.
Menção honrosa, nestas autênticas olimpíadas de inverno, merecem ainda os postos fronteiriços de Nathu La, entre a Índia e a China (4.310 metros), e de Burang, entre a China e o Nepal (3.640 metros).
5. A América do Sul também não está mal servida de fronteiras alcandoradas nos píncaros. Não admira, porque o subcontinente é atravessado, de Norte a Sul, pelas montanhas dos Andes, a maior cordilheira do mundo, ao longo de sete países e 8 mil quilómetros, com uma altura média rondando os 4 mil metros acima do nível do mar. A fronteira entre o Chile e a Argentina cruza um vulcão (Ojos Del Salado) localizado a 6.893 metros de altitude. Para controlo de passagem entre estes dois países, o posto fronteiriço de Paso de Jama foi instalado a 4.200 metros de altura. Um outro posto fronteiriço entre ambos os países (posto de Los Libertadores/ Cristo Redentor) fica-se pelos 3.200 metros.
6. Na Europa, a cordilheira dos Alpes propicia fronteiras bem empinadas, com a separação entre França e Itália cruzando o cume do Monte Branco, a 4.810 metros de altitude. Entre os postos de fronteira alpinos, destaque para o Col de l´Iseran, instalado a 2.770 metros de altitude, o que equivale à altura sobreposta das serras da Estrela e de Monchique. Mais perto de nós, nos Pirinéus, o posto de fronteira de Port d´Envalira situa-se nos 2.409 metros de altitude.
Um dos mais enregelados postos de fronteira europeus é, como seria de esperar, o mais setentrional da zona Schengen, na Lapónia, acima do círculo polar ártico, e separa a Noruega (Storskog) da Rússia (Borisoglebsky).
7. A crónica vai longa, a pedir desfecho. É tempo de acabá-la, até porque estão a bater á porta.
Levemente.
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
… Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
Zépestana | 24 fev 2026*
(*com a devida vénia, no final, ao poeta Augusto Gil)

