(EN)FADO NA FRONTEIRA
1. Tal como o sol, as fronteiras, quando nascem, nascem para todos.
Militar ou paisano, catedrático ou analfabeto, santo ou pecador, mancebo ou reformado, ninguém está isento de exibir os necessários documentos, declarar ao que vem – se lhe for perguntado – ou submeter-se à triagem do controlo aduaneiro.
Mesmo as celebridades, que milhões de seguidores acarinham e trazem nas palminhas, não se encontram dispensadas de acatar as formalidades de travessia das fronteiras. E, quando se trata de viagens internacionais, enfrentam as mesmas regulamentações do cidadão anónimo. Incluindo, de quando em quando, a eventualidade de uma recusa de entrada, com retorno forçado à proveniência. Ser devolvido à origem, na volta do correio, não foi nada que não tivesse já sucedido a Myke Tyson, pugilista norte-americano e campeão do mundo, a Cat Stevens, celebrado cantor e compositor britânico, ou a Paris Hilton, “socialite” multimilionária e herdeira do grupo Hilton. Na origem destes incidentes estão, as mais das vezes, antecedentes criminais, de maior ou menor gravidade, posse de estupefacientes ou valores não declarados.
2. Vem tudo isto a propósito de Amália Rodrigues – a cantora de fado mais bem-sucedida de todos os tempos e primeira mulher portuguesa a ter honras de Panteão Nacional -, que entendeu, já lá vão sessenta anos, partilhar alguns reparos à intervenção das autoridades num posto de fronteira:
“Ainda há tempos vinha, ansiosa, de França, por almoçar em Elvas, em terra portuguesa. Andámos horas estafantes, o meu marido, os meus acompanhantes, no carro cheio de pó e de tralha. Pois ao chegarmos à fronteira portuguesa, obrigaram-me a tirar as malas, a abri-las, e isso porque tinham recebido postais anónimos dizendo que eu era contrabandista.”
3. Habituada a um permanente cortejo de admiradores embevecidos, acostumada a vénias e rapapés, recebida em apoteose nos maiores teatros do mundo, rodeada a todo o tempo por expressões de afeição e simpatia, Amália não esperava, no regresso de mais uma triunfal digressão pelo estrangeiro, deparar-se com um tão rebarbativo ritual de boas-vindas. Sendo uma das poucas “divas” da época (ao lado da Piaf, da Callas ou da Magnani), considerou-se imerecidamente destratada e vítima de ingratidão.
4. A dimensão do desagrado levou a que o tornasse público, nas páginas de “O Século Ilustrado”, no verão de 1966. E explica-se pela imensa popularidade da artista, pelo seu prestígio aquém e além-fronteiras, pelo inquestionável brilho da sua carreira, actuando em cerca de setenta países de cinco continentes, pisando os palcos mais exigentes: Olympia de Paris, Carnegie Hall, de Nova York, Lincoln Center, Hollywood Bowl….
5. Amália teve origens humildes, que nunca renegou. E o seu notável percurso artístico, só possível graças a um extraordinário talento, contou com o apoio de personalidades graúdas do regime político então vigente, como António Ferro, Pedro Teotónio Pereira, César Moreira Baptista ou o banqueiro Ricardo Espírito Santo Silva. Por um lado, ao salazarismo não desagradava, no fado então dominante, uma certa romantização do pauperismo e uma mansa resignação com a modéstia e as desigualdades sociais, espelhadas nas letras das canções : “Não é desgraça ser pobre”, “A alegria da pobreza…”, “…no conforto pobrezinho do meu lar…”, “Basta pouco, poucochinho pra alegrar…”.
Por outro lado, ao ser venerada mundo fora, Amália (tal como Eusébio) desempenhava o papel hoje reconhecido a Cristiano Ronaldo, o de alavanca da marca-nação Portugal, obtendo destaque, reconhecimento e simpatia para o país. Acresce que, por essa via, contribuía indirectamente para branquear a autocracia então reinante e polir a sua baça imagem internacional.
6. Amália nunca se sentiu refém dos apoios recebidos: “Tudo o que sou, devo-o a mim mesma.”Talvez por isso, a sua relação com os mandantes da época nem sempre foi um mar de rosas. A dada altura, sendo já uma mulher com mundo, insubmissa e determinada, arriscou escolher, para o seu reportório de canções, poemas de intelectuais malquistos pelo regime, se não mesmo por ele hostilizados, como David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Manuel Alegre, José Régio, Sidónio Muralha e Alexandre O’Neill. Foi então possível ouvi-la cantar: “Por teu livre pensamento/ Foram-te longe encerrar”(Fado Peniche/Abandono). Além disso, para escândalo dos mais tradicionalistas, Amália atreveu-se a cantar Camões e outros poetas medievais e renascentistas, elevando o fado a patamares literários de excelência. Para este novo paradigma e súbito virar de página, muito contribuiu Alain Oulman, autor-compositor luso-francês, chegado ao Partido Comunista Português, que esteve ligado à Frente de Acção Popular e viria a ser, anos mais tarde, o editor do livro “Portugal Amordaçado” ( “Le Portugal Baillonné”), de Mário Soares. Oulman, que se tornou muito próximo da cantora, foi detido pela PIDE, em 1966, e Amália logo intercedeu pela sua libertação, não descansando até ele ser solto, um mês depois, e expulso para França.
7. Por tudo isto, Amália, com sangue na guelra, era já olhada com desconfiança e atentamente escrutinada pela PIDE, a polícia política de Salazar. Para o regime, tornara-se desconfortável transigir com o comportamento iconoclasta da cantora. Amália vinha subvertendo a natureza do fado e o situacionismo conservador não apreciava subversões. Sobretudo, dificilmente tolerava que a fadista se fizesse rodear de más companhias, de conspirativa gente do reviralho. Porém, a notoriedade de Amália, dentro e fora do país, conferia-lhe ampla imunidade, desencorajando qualquer medida mais áspera que pudesse descambar em escândalo.
8. É neste contexto que talvez possa explicar-se o incidente ocorrido no posto de fronteira do Caia-Elvas no Verão de 1966. Merecendo pouco ou nenhum crédito a frágil suspeita de envolvimento de Amália em práticas de contrabando, o que explica a minuciosa revisão da bagagem da cantora e dos seus acompanhantes? Não se pode descartar que a artista e, por tabela, a sua comitiva tivessem sido expostos a um simbólico ritual de humilhação, destinado a sobressaltar, intimidar, em última análise moderar a rebeldia de Amália, na esperança de reconduzi-la aos carris da ortodoxia, da temperança e das sisudas convenções. Participantes neste provável bullyingaduaneiro: um guarda fiscal façanhudo e resmungão, de voz grossa e génio brusco; um agente alfandegário abelhudo, incumbido de passar a pente fino o conteúdo das malas, vasculhando lingerie, jóias e escovas de dentes; e um pide carrancudo, desconfiado, de poucas palavras e muitos olhares.
Se non è vero…
9. Tendo sido usada, malgré elle, como cartaz de propaganda do regime salazarista, que sempre procurou tirar partido do prestígio da fadista, sobretudo para retocar a frouxa reputação internacional da ditadura, Amália viveu tempos turbulentos após a revolução de 1974. Em contrapartida, foi já em plena democracia que veio a saber-se, de fonte segura, que ela ajudara vários presos políticos nos anos sessenta e setenta. E mais se apurou que dera apoio a movimentos clandestinos de oposição ao regime, como o MUD.
10. Dirão os mais cépticos que a cantora, precavidamente, acendeu uma vela a Deus e outra ao Diabo.
Contudo, em matéria de convicções ideológicas e simpatias políticas, ninguém poderá garantir para que lado, se algum, pendia o coração de Amália. Ou não fosse ela quem cantava:
“De quem eu gosto, nem às paredes confesso…”
Zépestana | 10 mar 2026