VOANDO, MAS NÃO SOBRE UM NINHO DE CUCOS

1. Há muitas e variadas maneiras de cruzar uma fronteira internacional. De comboio, de avião, a butes, de carro…
Uma mesma fronteira, consoante a época do ano, pode até ser transposta de modo diverso. Em regiões de alta latitude, como o estreito de Béring, entre o Alasca e a Sibéria, as ligações entre países vizinhos fazem-se por barco. Todavia, no pino do Inverno, é possível (ainda que não aconselhável) transpor a mesma distância a pé, porque o mar congela, criando pontes de gelo naturais, capazes de suportar o peso humano.
2. Se o leitor acha enfadonhos os métodos convencionais de galgar uma fronteira, se cultiva o pensamento divergente, preza a originalidade, gosta de trilhar o seu próprio caminho, almeja desafiar as rotinas estabelecidas, foge do cinzentismo reinante, enjeita andar em rebanho e evita repetir o déjà vu, então tenho uma proposta fora-da-caixa que o deixará nas suas sete quintas: dê o salto de Espanha para Portugal em tirolesa.
Não sabe o que é?
Esclarece o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: tirolesa é uma estrutura constituída por um cabo horizontal aéreo que liga dois pontos e pelo qual é possível deslizar (do ponto mais elevado até ao mais baixo) suspenso através de roldanas presas a um arnês ou a uma cadeira de alpinismo.
Se preferir o original em língua inglesa, trata-se de “slide” através de uma “zipline”.
3. Graças a uma empresa inovadora, é de facto possível planar sobre a fronteira entre Portugal (Alcoutim) e Espanha (Sanlúcar de Guadiana), deslizando ao longo da primeira tirolesa transfronteiriça do mundo, por forma a completar os 720 metros que separam o ponto de partida, em Espanha, do ponto de chegada, em Portugal. Largados desde a colina do castelo de Sanlúcar, os destemidos viajantes escorregam até um vale na margem oposta do rio Guadiana. Porque para baixo todos os santos ajudam, o trajecto é percorrido a velocidades estonteantes, entre 70 e 80 quilómetros por hora, o que desencoraja os alentejanos, gente dada aos vagares. Curiosamente, aterra-se no Alentejo antes de se ter partido da Andaluzia, dada a diferença de fusos horários, com mais uma hora nos relógios do país vizinho.
4. Para quem deseja cumprir um sonho e realizar uma fantasia de infância, copiando os heróis romanescos que se elevam e pairam nos ares – como Peter Pan ou Ícaro, Mary Poppins ou o pequeno elefante Dumbo -, esta temerária experiência, reservada a homens de barba rija e mulheres de pelo na venta, é o mais parecido que se arranja.
Por falar em paquidermes, importa assinalar que apenas pode utilizar a tirolesa quem não acuse mais de 110 quilos na balança. Acima disso, uma de duas: ou colapsa o cabo, o que é o cabo dos trabalhos; ou os fundilhos das calças raspam as águas do Guadiana.
Os mais descontraídos, e menos propensos às vertigens, podem apreciar, de rosto ao vento, a verdejante paisagem e o típico casario, enquanto trauteiam, à maneira de Sinatra, “Come fly with me / Let´s fly, let´s fly away…”
Ou entoar, ao jeito de Domenico Modugno, “Volare, oh, oh, / Cantare, oh, oh, oh, oh / Nel blu dipinto di blu/ Felice di stare lassù…”
Quanto aos mais assustadiços, com o credo na boca, podem sempre fechar os olhos, tolhidos pela tremedeira, enquanto rezam as três ave-marias ou os dois pai-nossos que cabem, à tangente, nos 50 segundos da viagem.
5. Perguntará o leitor: 50 segundos não é tempo a menos para que se possa retirar satisfação da insólita viagem transfronteiriça?
E eu lembrar-lhe-ei que o prazer não se define pela duração, pela quantidade, mas pela qualidade.
Que o diga um antigo presidente da libertina França, Jacques Chirac, sedutor inveterado e Don Juan frenético, que ficou conhecido como monsieur “cinq minutes douche comprise”.
Rápido como um raio, o raio do homem…
6. Claro está que a experiência da tirolesa luso-espanhola só acontece graças ao Acordo de Schengen, que veio eliminar os controlos nas fronteiras internas entre os países membros (como é o caso de Portugal e Espanha), permitindo a livre transposição dessas fronteiras e a desembaraçada circulação de pessoas, como se os países vizinhos constituíssem um único território.
7. Sobre tiroleses e fronteiras, há uma história que merece ser contada. Como é sabido, o “muro de Berlim”, reforçando a fronteira externa da Alemanha Oriental, começou a ser construído em 1961, com sinistros requintes securitários (torres de vigilância, cercas electrificadas, holofotes potentes, minas terrestres, patrulhamentos permanentes por soldados armados e cães ferozes, valas profundas e armadilhas letais), tornando quase impossível a fuga para o lado ocidental da “cortina de ferro”. Mesmo assim, ao longo dos 28 anos de duração do muro, até 1989, muitas dezenas de milhar de pessoas arriscaram transpô-lo. A tentativa custou a vida a muitas delas (entre 140 e 200, segundo se estima), mas cerca de cinco mil foram bem sucedidas.
8. Entre estas últimas conta-se a família Holzapfel: Heinz, o pai, economista em Leipzig; Jutta, a mãe; e Gunter, garoto de nove anos. Após dois anos de meticulosa preparação, em 28 de Julho de 1965, lançaram-se numa operação clandestina de enorme risco, a coberto da noite e usando apetrechos artesanais. A partir do telhado de um edifício (com 24 metros de altura) rente ao muro, deslizaram, um de cada vez, por um cabo de aço esticado, com 120 metros de extensão, firmemente atracado a um camião, conduzido por familiares cúmplices, no lado de lá do muro.
Por mais espessos e sólidos que sejam os grilhões de uma corrente, eles não resistem, mais tarde ou mais cedo, ao indómito desejo de liberdade dos povos oprimidos: o muro de Berlim caiu com estrondo em 9 de Novembro de 1989.
Zépestana | 18 mar 2026