AMORES E FRONTEIRAS

“… Ó Elvas, ó Elvas,
Badajoz à vista.
Sou contrabandista
De amor e saudade…”
1. Assim cantava, há mais de meio século, Paco Bandeira, que se confessava “contrabandista” na fronteira com a Estremadura espanhola. Um contrabandista diferente, metafórico, traficante de paixões, passador clandestino de sentimentos e não de mercadorias ou substâncias proibidas.
2. De amores, fronteiras e contrabando trata um conto de Miguel Torga (“A Fronteira”), publicado em 1944:
Tudo se passa na zona raiana, mais precisamente na aldeia de Fronteira, separada do país vizinho por um ribeiro. Um belo dia, ali chega Robalo, jovem militar da Guarda Fiscal, entidade responsável pelo controlo fronteiriço e repressão do contrabando. Ora, numa paisagem dominada por tojos, granito e penedias, com solos ácidos e pouco profundos, a terra arável escasseia e a agricultura não garante o sustento das famílias, o que leva os habitantes da aldeia a sobreviver graças à prática do contrabando com Espanha (seda, azeite, calçado, tabaco, conhaque…).
Na aldeia, resume Torga, só há duas maneiras de “ganhar o pão”: ou “por conta do Estado, a vigiar o ribeiro”, ou “por conta da Vida, a passar o ribeiro”.
Robalo instala-se na povoação com o firme propósito de aplicar a lei, sem contemplações.
Em dia de festa na aldeia, conheceu Isabel. E logo se encantou: “A rapariga tirava a respiração a um mortal. Vinte e dois anos que nem vinte e dois dias de S. João. Cada braço, cada perna, cada seio, que era de a gente se lamber. Ora, como ele andava também na mesma conta de primaveras, e não era de pedra, o lume pegou-se à estopa.”
Passaram a viver juntos, de cama e pucarinho. Até que, um dia, Robalo entendeu preveni-la: “Gosto muito de ti…”, “…mas se te encontro a passar carga e não paras, atiro como a outro qualquer.”
Logo se desentenderam e se separaram. Durante meses, nem sequer se viam. Ela continuou a passar o ribeiro como podia, e ele a guardar o ribeiro como lhe competia.
Até que, chegado o Natal, em plena noite da Consoada, estando Robalo escondido à cata de contrabandistas, acabou por barrar o caminho, de carabina em punho, a uma mulher de cintura avantajada, que ele presumiu esconder, sob o abdominal chumaço, mercadoria clandestina. Ora essa mulher não era outra senão Isabel. Escoltada, debaixo de armas, até à aldeia (e poupo ao leitor mais detalhes), acabaria, nessa mesma madrugada, por dar à luz um bébé, fruto da sua pretérita união com o jovem militar.
Assim se conciliaram. E assim termina Torga este seu conto:
“Demitido, o Robalo juntou-se com a rapariga. Ora, como a lavoura de Fronteira não é outra, e a boca aperta, que remédio senão entrar na lei da terra! Contrabandista.
E aí começam ambos a trabalhar, ele com armas de fogo, que vai buscar a Vigo, e ela em cortes de seda, que esconde debaixo da camisa, enrolados à cinta, de tal maneira que já ninguém sabe ao certo quando atravessa o ribeiro grávida a valer ou prensa de mercadoria.”
3. Neste conto de Torga, talvez possamos encontrar ecos de uma outra obra que o precedeu em cerca de setenta anos: a ópera “Carmen”, de Georges Bizet. De facto, o primeiro acto começa no exterior duma fábrica de tabaco junto à fronteira. Além disso, um grupo de contrabandistas tem papel determinante no enredo. Finalmente, os protagonistas são um militar – Dom José – e uma sensual cigana – Carmen – que o seduz e enfeitiça, ao ponto de o levar a desertar do exército e a juntar-se aos contrabandistas.
Porém, ao invés da intriga do conto de Torga, a trama da ópera acaba em tragédia, quando Dom José, minado pelo ciúme, esfaqueia e mata a insubmissa Carmen.
4. Se algum sentido comum podemos retirar dos conflitos passionais narrados por Torga e por Bizet é o da força irrefreável do amor, que não conhece limites nem fronteiras. Mais forte do que a lei, leva os amantes, por mais íntegros e virtuosos, a questionar os seus valores. Por palavras diferentes, ambos os autores convergem na mesma constatação:
Carmen canta: “L’amour… il n’a jamais connu de lois.”
Torga comenta: “O coração dos homens, por mais duro que seja, tem sempre um ponto fraco por onde lhe entra a ternura.”
5. Muitas das mais marcantes histórias de amor surgem quando a afectuosa aproximação de duas pessoas é travada pela resistência das fronteiras. Quem não se lembra, em 1985, pouco antes do colapso da “guerra fria”, do pranto de um inconsolável Elton John, perdido de amores por uma jovem guarda fronteiriça, ao ser barrado num severo posto fronteiriço da “cortina de ferro” ?…”…Oh Nikita you will never know, anything about my home/ I’ll never know how good it feels to hold you/ Nikita I need you so…”
6. A fronteira está presente num dos mais celebrados filmes de culto da história do cinema: “Casablanca”, estreado em plena segunda guerra mundial. Nele se retrata o triângulo amoroso que liga Rick (um durão de coração mole, interpretado por Humphrey Bogart), a nórdica Ilsa (representada por Ingrid Bergman) e o marido desta, Victor Lazlo (resistente anti-nazi). Neste romance em tempo de guerra, simultaneamente um filme de dilemas morais, a derradeira cena ocorre na fronteira aérea de Marrocos, quando Rick renuncia ao seu amor, em nome da luta contra o nazismo, e entrega ao casal Lazlo os salvo-condutos que permitem a ambos, marido e mulher, embarcar num avião rumo a Lisboa.
7. História curiosa, abordada num outro filme (“Green Card”, 1990), é a de um casamento simulado que se converte numa paixão verdadeira.
Tentando obter autorização de residência nos Estados Unidos, um compositor francês (Gérard Depardieu) encena um casamento fictício com uma cidadã americana (Andie MacDowell), contornando fraudulentamente a lei. Após inúmeras peripécias, são ambos desmascarados pelos serviços de imigração, quando já se haviam apaixonado genuinamente. O que não impede o filme de terminar com a deportação do compositor, entre juras de amor eterno.
8. A conjugalidade, espaço privilegiado para a partilha de afectos e de intimidade, pressupõe normalmente comunhão de vida e proximidade física. É por isso inevitável o impacto da emigração no casamento e na família, quando um só dos cônjuges se vê forçado a abalar para outro país, em busca de melhores condições de vida.
Embora se registe uma crescente feminização das migrações, o padrão histórico é claro e consistente: os homens tendem a partir primeiro, designadamente em contexto de migração económica, deixando para trás as mulheres.
9. Aí fica a recordá-lo, a propósito da sangria demográfica dos anos sessenta e setenta, o belo poema de Rosália de Castro, cantado por Adriano Correia de Oliveira:
“Este parte, aquele parte / e todos, todos se vão./
Galiza ficas sem homens / que possam cortar teu pão…”
10. A globalização, o crescimento do turismo, a vulgarização dos transportes e os movimentos migratórios têm contribuído para a diversidade conjugal, com o aumento dos casamentos exogâmicos, entre cidadãos de diferentes nacionalidades.
11. Termine-se com uma nota positiva: 27% dos estudantes Erasmus (programa de intercâmbio de universitários promovido pela Comissão Europeia) encontraram um parceiro durante a estada no país de acolhimento. Daqui resultou um expressivo acréscimo de casais mistos, binacionais, que deram azo, nos últimos quase 30 anos, ao nascimento de um milhão de “bébés Erasmus.”
Envelhecida, a Europa carece urgentemente de bébés e de fraldas nos estendais, nem que seja através do saltitar entre fronteiras. Se necessário, conceba-se um novo programa de permutas românticas. Programa Orgasmus, porque não?…
José Pestana, pai de três, avô de quatro | 05 maio 2026