HUMOR E FRONTEIRAS

1. Para reconhecer que a fronteira pode constituir, em determinadas circunstâncias, um contexto propício ao humor, não é preciso recuar a Janeiro de 1882, quando o imodesto Oscar Wilde, acabado de chegar aos Estados Unidos, e tendo sido perguntado pelo funcionário da alfândega de Nova York se tinha alguma coisa a declarar, respondeu: “Nada tenho a declarar, excepto o meu génio.”
2. Sem esquecer ou desvalorizar a dualidade de experiências humanas que ali frequentemente coexistem, nem desconsiderar a ambivalência do local, palco de emoções contrastantes (das mais tristes despedidas aos mais festivos reencontros), a verdade é que a fronteira é um espaço particularmente fértil para o humor, porque reúne vários elementos catalisadores do riso: em primeiro lugar, é um local onde se exerce a autoridade (a cargo de funcionários da imigração, agentes aduaneiros, pessoal da segurança…). E bem se sabe como a autoridade, e a “gravitas” a ela associada, são alvos preferenciais do humor.
Não é difícil satirizar um funcionário da imigração, ou parodiar um fiscal da alfândega: basta defini-los como “furões”, “perguntadores compulsivos” ou “polígrafos com pernas”, capazes de detectar uma patranha a sete léguas. E, no entanto, a curiosidade sistemática, a atenção aos detalhes e um certo grau de suspicácia são ferramentas essenciais para esses profissionais. Quem não disponha de tais atributos pode tornar-se um excelente alfaiate, canalizador ou padeiro, mas carece de aptidões para trabalhar na fronteira.
3. Em segundo lugar, a fronteira é, cada vez mais, um local de encontro entre culturas diferentes. Ali, pessoas de línguas e hábitos distintos interagem num ambiente marcado pela tensão e rapidez. Os inevitáveis mal-entendidos e equívocos linguísticos (palavras pronunciadas de forma errada, expressões idiomáticas mal compreendidas ou traduções literais que produzem sentidos absurdos) podem tornar-se, desta forma, uma fonte inesgotável de humor.
4. Por último, é notório o ambiente de ansiedade gerado pela ocorrência de sucessivos controlos (verificação de documentos, escrutínio de bagagens), conjugado, por vezes, com a existência de artimanhas, mais ou menos canhestras, de ocultação e descaminho. Quando, revolvida na alfândega a bagagem dum passageiro, salta à vista uma enorme caixa de charutos não declarados, como não nos lembrarmos do desfazer das malas de Teodorico Raposo, recém-chegado da Palestina, e do pasmo da titi ao deparar com a camisa de noite de Mary?…
5. A realidade origina situações – pequenas ironias e peripécias do quotidiano – que nos arrancam um sorriso, ainda que não constituam anedotas nem tenham o propósito de criar humor.
Exemplo disso é o perspicaz expediente utilizado, em meados do século passado, no contrabando desenvolvido ao longo de parte da fronteira luso-espanhola. Os sapatos eram, então, um dos produtos mais frequentemente transportados de Espanha para Portugal pelos contrabandistas, de forma clandestina. Ora, sucede que eles nem sempre chegavam aos pares. Numa primeira travessia, vinham os sapatos esquerdos. Só mais tarde, numa segunda viagem, pela calada, se lhes juntavam os sapatos direitos.
Deste modo, preservava-se a mercadoria. Se os sapatos esquerdos fossem apreendidos pela Guarda Fiscal, a lei obrigava a que fossem leiloados em hasta pública. Claro está que a ninguém interessava adquirir sapatos de um só pé, pelo que acabavam licitados, por tuta-e-meia, pelos próprios contrabandistas. Só depois de recuperada esta primeira remessa é que passavam a fronteira, à socapa, os sapatos do pé direito.
Esta peripécia faz lembrar o estratagema alegadamente perfilhado pelo político brasileiro Adhemar de Barros, governador de São Paulo, nas décadas de 1940 e 1950: conta-se que, nas suas campanhas eleitorais, eram distribuídos sapatos de um só pé aos eleitores mais pobres, com a promessa de entrega do outro sapato depois da vitória do candidato.
6. O inesgotável filão de humor associado às fronteiras é permanentemente enriquecido por curtas anedotas de autor incerto, de que são exemplo as seguintes.
7. Depois de ter caído, aos trambolhões, pelas escadas do prédio onde residia, um cidadão polaco deslocou-se a Portugal para consultar um conceituado ortopedista.
À chegada ao aeroporto de Lisboa, é interpelado pelo funcionário da imigração:
– Nome?…
– Wojciech Brzęczyszczykiewicz.
– E antes da queda?…
8. Um belo dia, passeando numa cidade fronteiriça do Texas, um cidadão americano, entusiástico apoiante de Trump, tropeçou numa lâmpada mágica, da qual saiu um génio, que logo lhe concedeu um desejo.
Pediu o americano: – Quero que construas um muro alto e sólido em redor dos Estados Unidos. Tão alto e tão sólido que não deixe passar nenhum imigrante, muito menos mexicano.
Logo depois, o génio concedeu igualmente um desejo a um imigrante mexicano que por ali passava e que ouvira a conversa. E que assim falou:
–Tens a certeza de que o muro é completamente estanque, sem fendas, rachas ou buracos?
– Claro que sim. – afiançou o génio. Garanto que o muro é totalmente vedado, hermético e calafetado.
– Nesse caso, eis o meu desejo: enche-o de água até cima.
9. Por que razão os mexicanos, quando atravessam clandestinamente a fronteira, só o fazem individualmente ou, quando muito, aos pares?
Porque respeitam uma tabuleta onde está escrito: “No tres passing!”
10. Dizia o velho texano, em defesa da construção do muro na fronteira sul dos Estados Unidos:
– Claro que é eficaz. Os chineses construíram um, há mais de dois mil anos, e ainda hoje não têm lá mexicanos.
11. Na fronteira da Alemanha com Polónia, um turista alemão, à entrada na Polónia, é interrogado pelo guarda fronteiriço polaco:
– Nacionalidade?…
– Alemã.
– Idade?…
– 47.
– Ocupação?…
– Não, não, venho só em visita…
12. Na área de chegadas internacionais do aeroporto, um estrangeiro preenche o formulário dos serviços de imigração.
No espaço em branco destinado à indicação da naturalidade, onde diz “Nascido:….”, escreve “Sim”.
E no espaço em branco, a seguir a “Sexo:…..”, responde: “Às vezes”.
13. Numa sondagem realizada na Califórnia, perguntou-se aos inquiridos se achavam que a imigração ilegal é um problema sério.
28% responderam: “Yes, it is a serious problem.”
72% responderam: “No es um problema serio.”
14. À chegada à fronteira, no aeroporto, um emigrante asiático apresentou um passaporte com o nome e a fotografia de Leonardo DiCaprio. Foi-lhe recusada a entrada e repatriado, com fundamento em posse de passaporte alheio, porque o genuíno titular do documento havia já morrido, afogado, no naufrágio do Titanic.
15. Num avião, prestes a aterrar, uma mulher pede ao padre que está sentado ao seu lado que esconda sob a longa sotaina um frasco de perfume, de modo a não ter de pagar taxa alfandegária. O padre acede, com uma condição: se for perguntado, não mentirá.
Na alfândega, quando é questionado, responde ao agente: “Da cabeça até à cintura, não tenho nada a declarar.
Da cintura para baixo, tenho algo que as senhoras adoram, mas que, até hoje, permanece sem uso.”
José Pestana | 11 maio 2026