A DANÇA DAS TABULETAS

1. Todas as cidades têm nome. Importa que assim seja, porque a nomenclatura das cidades revela as influências culturais e as raízes de cada região, carrega memórias de povos ancestrais, representa uma âncora da singularidade local, constitui um vestígio vivo de línguas e culturas sobrepostas ao longo dos séculos e revigora o sentimento de pertença dos seus habitantes.
2. Por vezes, o nome de uma cidade traz acoplado um aposto explicativo que melhor desenvolve e especifica características e atributos associados ao local. Por isso se diz : de Nova Iorque, “…a cidade que nunca dorme” ; do Porto, “…a Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade”; de Coimbra, “…a Lusa Atenas”; de Aveiro, “…a Veneza Portuguesa”.
E, de forma bem mais prosaica, aplicam-se às cidades de Paços de Ferreira e de Vinhais, respectivamente, os sobrenomes “capital do móvel” e “capital do fumeiro”.
Nada, no entanto, que se compare a Banguecoque, capital da Tailândia, cujo nome completo, reservado para cerimónias oficiais de maior rigor protocolar, se revela descomunal. Aí fica, recomendando ao leitor que faça uma pausa a meio da leitura, para recuperar o fôlego: “Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Ayuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit.”
Traduzido do sânscrito, significa: “Cidade de anjos, a grande cidade, a residência do Buda de Esmeralda, a cidade inexpugnável do Deus Indra, a grande capital do mundo dotada de nove pedras preciosas, a cidade feliz, abundante na enorme residência real que se assemelha ao palácio divino onde reina o deus reencarnado, uma cidade dada por Indra e construída por Witsanukam.”
3. Dizem os mais cépticos: nada é mais permanente do que uma solução temporária. Ora, até esses pseudo-transitórios expedientes, que se arrastam no tempo, têm os dias contados. Nada dura para sempre.
A este destino não escapam os nomes das cidades, nem sequer dos países, que podem mudar com o rodar do tempo.
O Sri Lanka, por exemplo, é o país antes conhecido como Ceilão. Juntam-se-lhe, no grupo dos países rebaptizados, o Burkina-Faso (ex- Alto Volta), o Benin (antes Daomé), o Zimbábue (ex-Rodésia), os Países Baixos (ex- Holanda), o Mianmar (ex-Birmânia) ou a República Democrática do Congo (ex-Zaire)…
No tocante a cidades, Istambul já foi Constantinopla e, antes disso, denominava-se Bizâncio. Nova Iorque começou por chamar-se Nova Amesterdão. E a capital do Cazaquistão conheceu seis consecutivos nomes desde 1960: Akmolinsk, Tselinogrado, Aqmola, Astana, Nur-Sultã e de novo Astana.
Devido a sucessivas influências fenícias, romanas e muçulmanas, Lisboa já foi Olissipo, Felicitas Julia, Ulissipolis e Al-Ushbuna. Beja já foi Pax Julia. E Braga, Bracara Augusta. Montijo já foi Aldeia Galega. E Penafiel chamou-se, até ao século XVIII, Arrifana de Sousa.
4. Noutros casos, a mudança de nome das cidades ocorre por força da despromoção de políticos, antes idolatrados – ao ponto de inspirarem a designação dos lugares-, e depois caídos no esquecimento ou, pior, em desgraça. Assim provando como é volúvel a fama. E confirmando que “do Capitólio à Rocha Tarpeia não vai mais que um passo” (versão erudita) ou que rapidamente se passa “de bestial a besta” (em português raso).
Petrogrado, antiga São Petersburgo, mudou em 1924 o nome para Leningrado, e só em em 1991, já depois de morto e enterrado Vladimir Ilyich Ulianov, recuperou a designação primitiva. Também Estaline foi homenageado em 1925 pela cidade de Tsarítsin, então convertida em Estalinegrado, até que a desestalinização dos anos sessenta a renomeou de novo, desta vez como Volgogrado. Como uma desgraça nunca vem só, o nome do bigodudo “pai dos povos” foi suprimido na Ucrânia, passando a cidade de Stalino a chamar-se, até hoje, Donetsk. E porque não há duas sem três, também a cidade polaca de Katowice foi intitulada Stalinogród, mas recuperou em 1956 o seu primitivo nome ao renegar o soviético patrono.
Semelhantemente, a revolução de 1974, em Portugal, ocasionou um análogo surto de des-salazarização, com a retirada (incompleta, ainda assim) do nome do ditador, antes atribuído a pontes, barragens, bairros, avenidas, praças, cantinas e escolas, mas não conferido a qualquer cidade. Não há sequer registo de que a queda (literal) do antigo governante tenha sido aproveitada para alterar o nome da sua cidade-berço, de Santa Comba Dão para Santo Trambolhão.
Por essa altura, e como seria de esperar, os topónimos de muitas cidades das antigas colónias foram substituídos por nomes africanos. Nova Lisboa, Carmona, Sá da Bandeira, Lourenço Marques e Vila Cabral deram lugar, respectivamente, a Huambo, Uíge, Lubango, Maputo e Bafatá.
5. Uma outra e determinante razão que fundamenta a alteração da toponímia das cidades é a conjugação do seu contexto geográfico com a sua circunstância histórica. Ao longo dos anos, muito em particular em regiões de fronteiras instáveis, muitas cidades foram mudando de nome consoante pertenciam ora a um país, ora a outro.
6. Efectivamente, a Europa foi, durante séculos, um saco de gatos, conturbado campo de batalha, alvoroçado pela colisão de impérios concorrentes (francês, prussiano/alemão, britânico, russo, austro-húngaro), pelas rivalidades nacionalistas, pela competição territorial geoestratégica e pela indeterminação das fronteiras.
Ademais, as disputas territoriais raras vezes se dirimiam pela via pacífica. Os instintos beligerantes, à flor da pele, falavam mais alto (ocorre-nos o distúrbio obsessivo-compulsivo satirizado por Woody Allen: “Sempre que ouço música de Wagner, apetece-me invadir a Polónia”…). Nas fronteiras, que alguém certeiramente definiu como “cicatrizes da história”, acumulavam-se tensões (metaforicamente) semelhantes às do embate das placas tectónicas, geradoras de sismos: regularmente, um soberano ambicioso empreendia uma campanha militar de conquista, ou de desforra, levando os exércitos a transpor as suas fronteiras nacionais.
As consequentes (e por vezes temporárias) mudanças de soberania verificaram-se sobretudo na Europa Central e Oriental, com destaque para a Alsácia-Lorena (fronteira franco-alemã), a Polónia, os Balcãs e a Silésia (partilhada pela Chéquia, Polônia e Eslováquia).
7. É na Alsácia que encontramos um dos mais eloquentes exemplos deste cenário. Região charneira entre França e Alemanha, mudou de mãos (alternando entre ambas as nações) quatro vezes nos últimos 155 anos, tornando-se um paradigma de disputa territorial fronteiriça.
Germânica primeiro, a Alsácia foi anexada pela França (1648), depois cedida à Alemanha (1871), posteriormente retomada pela França (1918) e de novo ocupada pela Alemanha (1940), até ser definitivamente devolvida à soberania francesa (1945).
Durante os períodos, intercalados, de domínio germânico sobre a Alsácia, o uso da língua alemã tornou-se obrigatório e os topónimos foram igualmente alterados: Straßburg em vez de Estrasburgo, Diedenhofen em vez de Thionville, Rappoltsweiler em vez de Ribeauvillé…
8. A mudança de nomes das cidades, promovida pelo poder político recém-instalado, especialmente nas áreas fronteiriças, constituía uma afirmação da nova soberania, um deliberado corte com os símbolos da antiga ordem, um propósito assumido de realinhamento cultural e uma conformação ao idioma do poder dominante.
9. Após a Segunda Guerra Mundial, as fronteiras da Polónia foram deslocadas para oeste. Consequentemente, cidades que eram alemãs tornaram-se polacas: Breslau tornou-se Wrocław, Stettin tornou-se Szczecin. E Grünberg in Schlesien recuperou o nome de Zielona Góra. Junto ao Báltico, Danzig tornou-se Gdańsk.
10. Depois da queda do Império Austro-Húngaro e, mais tarde, após a Segunda Guerra Mundial, algumas cidades, na zona fronteiriça hoje partilhada por Itália, Croácia e Eslovénia, mudaram de nome: Fiume (italiano) tornou-se Rijeka (croata) e Zara (italiano) tornou-se Zadar (croata).
11. No Norte da Europa, são conhecidos casos similares. Turku é o nome da cidade finlandesa que, durante o secular domínio sueco, era conhecida como Åbo. E a cidade russa de Viburgo (ou Vyborg), muito perto da Finlândia, já conheceu outras denominações: Wiborg (quando pertencia à Suécia) e Vipuri (quando integrava a Finlândia). O mesmo sucedeu à cidade russa de Priozersk, que anteriormente foi finlandesa (com o nome de Käkisalmi) e sueca (então chamada Keksgolm).
E por último o meu nome, imutável até ver:
José Pestana | 20 abr 2026