A FRONTEIRA IKEA (FAÇA-VOCÊ-MESMO)
1. A fronteira sul dos Estados Unidos ficou essencialmente definida a meio do século XIX, com a anexação de mais de metade do território mexicano, incluindo a Califórnia e o Texas. Mas só na segunda metade do século XX começou a ser, de forma gradual, claramente demarcada, consistentemente protegida por barreiras físicas (cercas, muros, gradeamentos…) e controlada por regular patrulhamento.
Com uma extensão aproximada de 3.140 quilómetros (equivalente à distância, em linha recta, entre Lisboa a Minsk, capital da Bielorrússia), estende-se do Oceano Pacífico ao Golfo do México. Tão depressa ladeia e divide cidades contíguas (Tijuana/ San Diego) como percorre vastos desertos inabitáveis (Sonora, Chihuahua), cumes de difícil acesso ( montanhas Baboquivari) ou segue o curso do Rio Grande, uma barreira fluvial que se alonga por 2020 quilómetros.
Trata-se de uma das fronteiras mais movimentadas do mundo, com excepcional fluxo de pessoas e viaturas, que transpõem em ambos os sentidos os cerca de cinquenta postos de passagem autorizada. E é um ponto central da agenda política e mediática, porque as rotas migratórias e o tráfico de drogas, provenientes do vizinho meridional, causam apreensão e recomendam precauções.
2. Engana-se quem pense que começaram com Donald Trump os esforços para blindar, tanto quanto possível e razoável, a fronteira sul, tornando-a menos permeável ao contrabando e a persistentes fluxos migratórios. No controle da fronteira EUA-México empenharam-se, ao longo dos anos, presidentes de ambos os partidos, republicanos e democratas. Embora com nuances, a tendência geral, nos últimos quarenta anos, foi a de reconhecer a crescente necessidade de mais firme controlo fronteiriço. Conquanto Richard Nixon, em 1969, tenha promovido, no quadro do combate ao narcotráfico, um quase encerramento temporário da fronteira com o México (Operação Intercept ), devem-se a George Bush (pai), nos anos 80, os primeiros passos (22,5 quilómetros) na edificação de um muro (não necessariamente contínuo) entre os dois países. Bill Clinton reforçou a vigilância fronteiriça, adoptando estratégias dissuasivas, como a da chamada Operação Guardião (Gatekeeper ) e fomentando a instalação de cercas de aço e o incremento da iluminação na linha fronteiriça. Na ressaca dos atentados de 11 de Setembro, o controlo e militarização das fronteiras assume, com George Bush (filho), vital importância na estratégia securitária e anti-terrorista do governo norte-americano: foi aprovado, em 2006, o Secure Fence Act, prevendo, entre outras medidas, a construção de 1.100 quilómetros de muro, em aço e betão. A obra, contudo, ficaria inacabada em 2010, porque o custo (quase 3 milhões de dólares por quilómetro) tornou o empreendimento proibitivo. Em 2011, durante o mandato de Obama, as vedações na fronteira meridional espraiavam-se por 1044 quilómetros.
3. Quando Donald Trump iniciou o seu primeiro mandato, em 2017, já se encontram erigidas várias – ainda que desiguais e desgarradas – secções do muro, numa extensão equivalente a cerca de um terço da fronteira entre o México e os Estados Unidos.
O que Trump trouxe de novo, para além de uma desbragada e alarmante retórica xenófoba, misógina e racista, que usa e abusa dos imigrantes como bodes expiatórios, foi o obsessivo enfoque na urgente finalização do muro (“One Big, Beautiful Wall ”), que garantia ser “impenetrável”, bem como o fantasioso propósito (depressa desacreditado) de o fazer pagar pelas autoridades mexicanas.
4. Logo em 2017, as autoridades norte-americanas lançaram um concurso de ideias para um protótipo do muro. Nos termos do caderno de encargos, os módulos componentes do Trump Wall deveriam ser barreiras à prova de escalamento, alcançar uma altura entre 5,5 e 9 metros, e um comprimento de 9 metros, ter alicerces com uma profundidade mínima no solo de 1,8 metros (para dissuadir o uso de túneis) e mostrar resistência suficiente para suportar pelo menos 30 minutos de tentativas de perfuração por ferramentas manuais ou elétricas, como marretas, macacos de carro, picaretas e maçaricos.
Cerca de 700 empresas mostraram interesse em participar, mas apenas pouco mais de duzentas apresentaram propostas concretas, das quais só quatro acabariam por ser selecionadas. Como seria de esperar num tão amplo número de candidaturas, foram entregues projectos para todos os gostos, dos mais conservadores aos mais futuristas, dos mais convencionais e realistas aos mais mirabolantes.
5. Um dos concorrentes, talvez sugestionado pela estética kitschde Mar-a-Lago, concebeu um muro em estilo neoclássico, que asseverou ser “ tão bonito como o Partenon”de Atenas. Uma outra empresa projectou um muro em tudo semelhante à Grande Muralha da China, com as suas torres e muros duplos dotados de ameias, encimado por uma passarela (ciclável).
Um dos mais visionários projectos submetidos a concurso preconizava a instalação, em alternativa ao muro, de um sistema de transporte ultra-rápido “hiperloop” (cápsulas viajando, em levitação magnética, no interior de tubos de baixa pressão – vácuo parcial – podendo atingir velocidades superiores a mil quilómetros por hora).
Uma empresa de Pittsburgh propôs uma cerca dupla (de arame farpado, do lado mexicano; e de betão, do lado americano), intercalada por um canal, com 30 metros de profundidade, cheio de resíduos tóxicos radioactivos.
Bizarro? Nem tanto, se nos lembrarmos de Donald Trump a sugerir que os imigrantes ilegais deveriam ser alvejados a tiro, nas pernas, aquando da entrada no país, ou a alvitrar cercas electrificadas nas fronteiras, bem como fossas alagadas, infestadas de cobras e crocodilos. Apesar do desmentido do próprio, assim consta, preto no branco, no livro “Border Wars: Inside Trump´s Assault on Immigration”, dos jornalistas Michael Shear e Julie Davis, do New York Times.
6. A campanha de recolha pública de ideias para o muro fronteiriço acabou por degenerar, em boa parte, convertendo-se numa imaginativa cruzada contra os excessos e abusos da política de Trump em matéria de imigração e fronteiras, revestindo até, num caso ou noutro, as ressonâncias sarcásticas duma paródia.
Um fantasioso arquitecto da Florida sugeriu uma réplica da colossal muralha de gelo sólido e rocha, com duzentos metros de altura, que na série “Guerra dos Tronos” defende a fronteira norte de Westeros.
Uma outra proposta previa a instalação, no lugar do muro, de três milhões de camas de rede, suspensas de árvores plantadas ao longo da fronteira, nas quais os cidadãos de ambos os países pudessem relaxar.
Em resposta ao desejo, formulado por Trump, de construir rapidamente um muro ao mais baixo custo possível, a revista satírica “The Postillon” (https://www.the-postillon.com) apresentou uma falsa promoção da marca sueca IKEA, que consiste numa fronteira (Börder Wåll) pronta a montar, cuja embalagem contém: um detalhado manual de instruções-passo-a-passo, com 12 mil páginas, apenas com ilustrações e sem texto; 471.612 painéis de madeira prensada e forrada a laminado de efeito bétula; 5.659.344 parafusos; 313.329 rolos de arame farpado; e uma única chave de parafusos. A esta fictícia proposta se reporta a imagem que acompanha a presente crónica.

7. Sem questionar o préstimo do robustecimento da fronteira, desde que associado a ferramentas tecnológicas e complementado por meios humanos devidamente instruídos e habilitados, sempre se dirá que o melhor e mais eficaz muro seria a transformação da América Central numa zona de prosperidade, economicamente forte, que erradicasse a fome, a extrema miséria e a falta de oportunidades, deixando de potenciar a formação de grandes fluxos migratórios e retirando à fronteira dos Estados Unidos a força magnética que fatalmente os atrai.
De facto, com excepção do Panamá e da Costa Rica, com economias fortes, os países da América Central apresentam uma enorme disparidade de rendimento per capita em relação aos Estados Unidos da América. De acordo com os dados mais recentes do Fundo Monetário Internacional, o rendimento anual per capita dos Estados Unidos (cerca de 93 mil dólares) é seis vezes superior ao do México, catorze vezes superior ao da Guatemala, dezasseis vezes superior ao de El Salvador, vinte e cinco vezes superior ao das Honduras, trinta vezes superior ao da Nicarágua e trinta e oito vezes superior ao do Haiti.
Assim, não há muro que resista.
Zépestana | 22 jan 2026