AS FRONTEIRAS DA TRUMPLÂNDIA

Donald Trump defende as fronteiras ou ataca as fronteiras?
Valoriza-as? ou merecem-lhe desprezo?
Ignora-as? ou respeita-as?
A resposta é: Tem dias.
Ou melhor: usa de um duplo e interesseiro critério, de modo a que possa ter chuva no nabal e sol na eira.
Por um lado, encarna a defesa intransigente de “hard borders”, fronteiras robustas, protegidas, blindadas, impenetráveis, fortemente vigiadas e permanentemente patrulhadas, dotadas de dissuasoras barreiras físicas e tecnológicas, impeditivas de tráficos ilegais e de incursões migratórias. Tudo isto, claro está, no que toca às fronteiras que delimitam o território dos Estados Unidos e o separam dos países vizinhos, particularmente do México.
“Build the Wall”, focado nos 3142 quilómetros da fronteira meridional, foi o obsessivo lema que alavancou a sua ascensão à Casa Branca. O mote era, aliás, mais completo: “Build the Wall and Crime Will Fall”, como se não causasse maior dano à segurança pública o facto, abençoado pelo actual presidente, de se encontrarem nas mãos de civis americanos cerca de 400 milhões de armas de fogo (para 330 milhões de habitantes), incluindo 5 milhões de metralhadoras, tornando os Estados Unidos o país com maior número de homicídios cometidos com arma de fogo.
Por outro lado, no que respeita a países como a Venezuela, o Iraque, o Irão, a Nigéria, a Somália, a Síria ou o Iémen, Donald Trump encara as respectivas fronteiras como fantasias indefinidas (“no borders, just horizons”), permeáveis, trespassáveis. Diria, até, estupráveis.
Estupráveis, sim, porque as investidas militares e profanações de soberania levadas a cabo pelo actual presidente dos Estados Unidos têm a mesma e inconfundível marca de quem, a propósito das mulheres, um dia sentenciou: “Grab them by the pussy. You can do anything.” (Em tradução livre, “agarram-se pelas partes baixas e pode-se fazer tudo.”). A mesma coerção, semelhante prepotência, idêntico abuso de poder, similar erupção de testosterona, o mesmo instinto predador, a mesma falta de consentimento de vítimas descartáveis.
Para o truculento inquilino da Casa Branca, um incontinente verbal de sangue quente e pavio curto, as fronteiras (dos outros, bem entendido) não têm o mesmo sacrossanto valor das suas próprias, nem constituem, como todas deveriam representar, espinha dorsal do direito internacional e pedra angular da pacífica convivência global das nações.
Por acção de Trump, o direito internacional, cuja relevância prática já vinha perdendo gás, corre nesta altura maior risco de extinção do que o lince da Malcata.
O actual presidente norte-americano considera o vigente ordenamento jurídico internacional, com os seus tratados e convenções, um puro resquício de tempos jurássicos, um esotérico devaneio para académicos, recheado de rodriguinhos e formalidades bizantinas, uma conversa de chacha (onde é que eu já ouvi isto?) para a qual não há pachorra.
Como efeito colateral, o mundo vive agora, mais do que antes, em constante desassossego, balançando perigosamente na corda-bamba. E ninguém está a salvo. Onde houver recursos para explorar (petróleo, gás natural, terras raras), a administração Ianque parece reger-se pelo lema da ditadura militar brasileira nos anos setenta, ao avançar pela selva amazónica adentro: “Chega de lendas, vamos faturar.”
Nestas condições, nenhum país pode sentir-se suficientemente resguardado. Nem o grande Canadá, nem a enorme (e dinamarquesa) Gronelândia. E depois de abocanhada a Venezuela, as ilhas caribenhas (como Curaçau e Aruba, Cuba e Granada, Barbados e Guadalupe, Trinidad e Tobago) são ínfimos petits-fours fáceis de deglutir.
Tampouco Portugal pode sentir-se, como a linda Inês,“posto em sossego”. Vai-nos valendo o facto de ainda não ter chegado a Washington a notícia de que “há petróleo no Beato”. Nem a confirmação de que sobra droga em Rabo de Peixe.
P.S.: “No borders, just Horizons” (acrescida de ”…Only Freedom”) é uma frase imputada a Amelia Earhart, pioneira da aviação, primeira mulher a cruzar o oceano Atlântico em voo solitário e empenhada defensora dos direitos das mulheres e dos direitos humanos em geral.
Zépestana | 11 jan 2026