AS FRONTEIRAS DO TEMPO
“O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”
(Lengalenga popular)
1. Cruzar uma fronteira, mudando de país, obriga a acertar o relógio, alterando a hora?
Não, em se tratando de uma fronteira entre França e Alemanha, entre Argélia e Tunísia, entre Tailândia e Camboja, entre Brasil e Uruguai, entre Quénia e Tanzânia, entre Malásia e Tailândia ou entre Lisboa e Londres.
Sim, quando se trate da fronteira entre Portugal e Espanha, entre Itália e Grécia, entre Argélia e Líbia, entre Afeganistão e China, entre Brasil e Perú.
Dando de barato que estas diferenças não resultam de caprichos dos guardas fronteiriços, como explicá-las?
2. Se os lunáticos terraplanistas tivessem razão, o sol brilharia ao mesmo tempo em Tóquio e Caracas, em Joanesburgo e Nova Iorque, em Telavive e Calcutá, em Buenos Aires e Pequim.
Sucede que estão redondamente enganados, como a ciência desde há muitos séculos vem demonstrando, sem margem para hesitações ou ambiguidades.
3. É ponto assente, desde Eratóstenes, no século II a.C., que o Criador dotou a Terra de forma esférica, talvez prevendo – quem sabe? – jogar ao berlinde com os planetas, um dia em que acordasse mais traquinas.
É certo que, em finais do século XIX, Guerra Junqueiro sustentou ter sido a Terra criada com o formato de um macaco do nariz. Porque Deus, o Padre Eterno, um belo dia, …
“…Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Pôs-se a esgaravatar com o dedo no nariz,
Tirou desse nariz o que um nariz encerra,
Deitou isso depois cá baixo, e fez-se a Terra.”
Mas isto, claro está, são devaneios de poeta, moldados em sentido figurado, líricas fantasias que desaconselham uma interpretação literal.
4. Pés no chão tinha Copérnico, no século XVI, quando defendeu que a Terra, a redonda Terra, orbita o Sol. Mais: o nosso planeta, não apenas gira em torno do Sol, como vai simultaneamente rodopiando, como um pião, em torno do seu próprio eixo, assim expondo sucessivamente à luz solar algumas regiões e deixando outras na sombra, do lado oposto, em ciclos naturais alternados de dia e noite.
Três séculos depois, o matemático italiano Quirico Filopanti e o engenheiro canadiano Sandford Fleming quase coincidiram na proposta de criação de um sistema global de tempo padronizado, capaz de conferir algum rigor à medição do tempo.
5. Porque rigor era, nas priscas eras medievais, coisa desconhecida.
A maior parte das pessoas ignorava, ao certo, a sua própria idade. E o tempo era empiricamente determinado pelos ritmos naturais, pela marcha do Sol ao longo do dia e pelo variável comprimento das sombras, bem como, à noite, pela posição das estrelas no firmamento. Sem esquecer o inovador contributo dos monges, que asseguravam o dobrar dos sinos nos campanários das igrejas e abadias.
Até à invenção, por volta do século XIII, dos relógios mecânicos (de corda, não confundir com os modernos relógios digitais…), as horas eram imprecisas, sem duração fixa, calculadas – por assim dizer – a olhómetro. Uma tal instabilidade, um tamanho caos, desconvinha aos novos tempos do renascimento, do iluminismo e, sobretudo, da revolução industrial.
6. Dos velhos e ronceiros comboios espanhóis costumava dizer-se, noutros tempos: “llegan cuando llegan” (chegam à hora a que chegarem). Não assim no Reino Unido, berço da pontualidade britânica. Talvez por isso, reza a lenda que Sir Sandford Fleming, algures na Irlanda do último quartel do século XIX, perdeu um comboio devido à confusão entre horários locais. E que esse irritante episódio ferroviário o terá motivado a imaginar uma solução de uso universal. Nesse sentido, propôs dividir a Terra em 24 faixas verticais (“fusos”) – como 24 gomos de uma laranja -, cada uma correspondendo a 15 graus de longitude e representando uma hora do dia.
7. Como Londres era, à época, o centro económico e político do mundo, foi-lhe atribuído (mais precisamente ao observatório de Greenwich) o “marco zero” dos fusos horários. A partir desse fuso, as horas vão aumentando no sentido leste (1 hora a cada fuso, até chegar ao décimo segundo) e diminuindo no sentido oeste (1 hora a cada fuso, até chegar ao décimo segundo). A hora de Greenwich tornou-se a “hora universal” ou “hora padrão”: é em relação a ela que se determinam os horários em todo o mundo.
À chegada do século XX, já a proposta de Sir Sanford Fleming havia sido perfilhada e todos os países adoptaram gradualmente fusos horários padronizados.
8. Assevera um velho provérbio popular português: “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.” Após a instauração do sistema planetário de fusos horários (“Tempo Universal Coordenado”), e tendo caído em desuso as rocas de fiar, melhor será dizer: “cada terra com seu fuso”…
9. Quando dizemos “devagar se vai ao longe”, referimos dois essenciais elementos estruturantes da vida: o tempo (devagar) e o espaço (longe), sem os quais nos sentiríamos perdidos. Compreende-se assim a necessidade humana de pautar, padronizar, mensurar e “mapear” o tempo (com dias, horas, minutos, segundos, fusos horários…) e o espaço (com coordenadas geográficas, meridianos, paralelos, fronteiras…), recorrendo a divisões, a parcelas conceituais, impalpáveis, que nos permitem organizar metodicamente a vida, garantindo previsibilidade, segurança, interoperabilidade e sincronização num mundo globalizado, crescentemente integrado.
10. Fica assim claro como água por que diabo é meio-dia em Lisboa quando o relógio bate meia-noite na Nova Zelândia. O que, passe a ironia, talvez explique, ao contrário do que pensava Antero de Quental, que a decadência dos povos peninsulares se deve aos fusos horários, porque enquanto se trabalha freneticamente em Silicon Valley, nós estamos a dormir, quiçá mesmo a ressonar, ou não houvesse, entre Portugal e a Califórnia, um desfasamento de oito horas.
11. Um caso digno de menção ocorre nas ilhas Diomedes, localizadas no estreito de Bering, entre o extremo ocidental da Sibéria russa e o extremo oriental do Alasca americano. Trata-se de duas ilhas rochosas, pertencendo uma delas (a Diomedes Maior ) à Federação Russa e a outra (Diomedes Menor ) aos Estados Unidos da América. São separadas por um delgado canal marítimo de apenas quatro quilómetros de largura, que serve de fronteira marítima entra ambos os países e que já nos tempos da Guerra Fria foi apelidado, atendendo à tensão geopolítica então vigente e à baixa temperatura das águas, “Cortina de Gelo”, por analogia com a “Cortina de Ferro” na Europa.
Ora, é precisamente no meio das duas ilhas que passa a chamada Linha Internacional de Data, a divisória imaginária concebida para marcar a transição de um dia civil para o dia seguinte, no intuito de operacionalizar os fusos horários e de permitir a definição uniforme dos calendários.
12. O efeito prático desta situação é curioso: quem cruza a fronteira entre as ilhas Diomedes, da ilha russa para a americana, retrocede um dia no calendário; e quem a cruza no sentido inverso avança um dia. Quando, na Diomedes Maior, já são 12 horas de segunda-feira, na Diomedes Menor ainda são 15 horas de domingo. Uma diferença de um dia, apesar de a distância entre ambos os territórios poder ser percorrida, de barco, em apenas dez minutos!
13. Esta inusitada particularidade alimenta todas as fantasias. A ilusão de que o tempo pode andar “às arrecuas” e proporcionar o “ganho” de um dia, permite, por exemplo, que alguém se case na ilha russa, ao domingo, e possa cruzar a fronteira, logo após, rumo à ilha americana, para aí, onde ainda é sábado (e abunda o whisky), festejar a despedida de solteiro…
Vai longa a prosa, caro (e raro) leitor. É tempo de terminá-la.
Zépestana | 09 abr 2026