AS FRONTEIRAS NA BANDA DESENHADA
1. “Tintin e os outros (Haddock, Milou, Tournesol, os Dupond/t, a Castafiore, Tchang, Oliveira de Figueira…) chegaram à minha vida na infância, com o “Cavaleiro Andante” e, como na canção de Maria Bethânia, instalaram-se para sempre, feitos posseiros dentro do meu coração. Com eles fui à lua e viajei por todos os mares do mundo, subi aos Himalaias e desci aos negros porões da alma humana, atravessei os desertos da Arábia e as estepes da Rússia, defendi os fracos e enfrentei opressores e ricaços sem escrúpulos, persegui gangsters, traficantes, escroques, usurários, assustei-me, enterneci-me, comovi-me, exaltei-me, ri, chorei, convivi com guerrilheiros, com tiranos, com comerciantes, com sábios, com iluminados…”
Estas palavras foram escritas por Manuel António Pina (“Crónica, Saudade da Literatura”, 2013, Assírio & Alvim), mas assino-as já por baixo, fazendo-as minhas, porque partilho as mesmíssimas memórias do tempo de catraio imberbe, salivando todas as semanas pela chegada do mais recente número do “Mundo de Aventuras”, do “Cavaleiro Andante”, do “Mosquito” ou da revista “Tintin”.
2. Desde essa época dourada, a banda desenhada evoluiu sobremaneira, tomou novos e variados rumos, conquistou novos públicos, muito para lá da primitiva audiência infando-juvenil, adquiriu estatuto de maioridade intelectual e estética – como “nona arte”– , tornou-se objecto de culto e de estudo pelos académicos, focou-se em temáticas graves e actuais, ganhou densidade narrativa e profundidade psicológica nas chamadas “novelas gráficas”, de autores como Will Eisner, Craig Thompson, Joe Sacco e Alison Bechdel.
3. Com alguma frequência, as fronteiras servem de pano de fundo ao enredo das bandas desenhadas. Por várias razões: desde logo, porque os protagonistas e heróis da banda desenhada são habituais viajantes, crónicos andarilhos, compulsivos caminhantes que percorrem de lés a lés as quatro partidas do mundo, cruzando desembaraçadamente todo o tipo de fronteiras.
4. Viagens e Banda Desenhada são dois velhos conhecidos. Basta lembrar aquela que vem sendo geralmente apontada como primeira “história aos quadradinhos” produzida em Portugal, em 1872, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro. A sátira gráfica, parodiando uma longa digressão do imperador do Brasil, D. Pedro II, à Europa e Médio Oriente, intitulava-se “Apontamentos Sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb Pela Europa”.
5. Tintin, por exemplo, envolveu-se em peripécias nos mais variados países e exóticos territórios, da Escócia à Índia, do Médio Oriente (Arábia Saudita, Jordânia e Egipto) ao Congo, dos Estados Unidos da América à União Soviética e ao Tibete, sem esquecer inúmeros países fictícios, como as latino-americanas repúblicas de San Thedoros e Nuevo Rico.
6. Corto Maltese, o sonhador e solitário marinheiro criado pela fértil imaginação de Hugo Pratt, passou por Brasil, Colômbia, Belize, Antilhas, Venezuela, Honduras, Manchúria, Antilhas, China, Argentina, Estados Unidos, Ilhas Salomão, Caribe, Amazonas, Suíça, Irlanda, Abissínia, Perú, Hong-Kong, Sibéria, Grécia, Itália, Iémen, Somália e Etiópia,
7. Quanto a Astérix, o destemido gaulês, aventurou-se, partindo da Gália, pelo Egipto (de Cleópatra), pela Índia, Mesopotâmia, Fenícia (Líbano), Córsega, Germânia, Hispânia (Espanha), Helvécia (Suíça), Grande-Bretanha, Bélgica, Itália, Lusitânia (Portugal) e até, pasme-se!, pelo norte da América.
8. Não é apenas a banda desenhada que descreve prodigiosas andanças pelo mundo. A grande literatura clássica – de texto corrido, despojado de ilustrações gráficas – explora abundantemente o tema, porventura o mais antigo motivo inspirador de poetas e romancistas. De Homero (“pai” de Ulisses, o primeiro e matricial dos peregrinos) a Goethe, de Kerouac a Saramago, de Fernão Mendes Pinto a Mark Twain, de Dickens a Eurico Veríssimo, de Camões a Júlio Verne – muitos foram os autores que transformaram em matéria de escrita a sua própria experiência de viajantes ou narraram os périplos pelo mundo dos seus imaginários heróis e das suas fictícias personagens.
9. Recorrentemente, as fronteiras são centrais no enredo da banda desenhada, como aliás da literatura e do cinema. É da sua própria natureza constituirem – pelo menos algumas delas – zonas de potencial confronto e atrito, geradoras de inquietação, ambiente propício para transmitir uma sensação de urgência e perigo iminente, palco privilegiado para criar tensão dramática, cenário ímpar para tramas dramáticas que envolvem conspiração, intriga, evasão, resgate, negócios furtivos e jogos de poder, envolvendo personagens tão diversas como aventureiros e espiões, narcotraficantes e diplomatas, clandestinos e falsários, militares e desertores, exilados políticos e grupos mafiosos, refugiados e detectives, activistas e vilões…
10. As ilustrações que acompanham (e enriquecem) o presente texto visam demonstrar diferentes representações das fronteiras na banda desenhada (das mais realistas e sérias às mais leves e espirituosas) e, em simultâneo, prestar justa homenagem aos seus autores .
11. As primeiras duas vinhetas (1) retratam o muro de Berlim nos anos sessenta, em plena “guerra fria”, quando esta linha altamente fortificada constituía o arquétipo histórico das fronteiras “duras” , garantindo a rígida separação entre dois países e, mais do que isso, entre duas ideologias. A ilustração pertence ao álbum “Oito Horas em Berlim”, com os protagonistas Blake e Mortimer, da autoria de Edgar Pierre Jacobs.

12. Nas cinco vinhetas seguintes (2) narra-se a entrada na Germânia, proveniente da Gália, da dupla Astérix (o intrépido meia-leca bigodudo gaulês) e Obélix (seu compincha, insaciável devorador de javalis assados). Este último é quem se encarrega das “formalidades”, traduzidas num vendaval de bofetões e numa enxurrada de tabefes ao desvalido guarda fronteiriço. Os criadores da dupla de gauleses foram Gosciny e Uderzo.

13. O próximo personagem não carece de apresentações: Tintin, o audacioso repórter criado por Hergé, percorre, nas cinco vinhetas seguintes (3) a zona fronteiriça entre dois (fictícios) países balcânicos vizinhos (Sildávia e Bordúria), correndo sempre os maiores riscos, mas conseguindo, desta feita, recuperar o “Ceptro de Ottkar”, assim fazendo imperar a justiça e a democracia.

14. O “quadradinho” que se segue (4) é da autoria de Émile Bravo e regista o momento, em plena segunda guerra mundial, em que Spirou e Fantasio chegam à fronteira que separa a Bélgica da França. O álbum do qual foi retirada esta vinheta chama-se “A Esperança Nunca Morre”.

15. Finalmente, três vinhetas desenhadas por autores portugueses: naquela que surge identificada com o número 5, o protagonista dá pelo nome de “Espião Acácio”, da autoria de Fernando Relvas. Logo depois (6), uma vinheta extraída do álbum “Agência de Viagens Lemming”, criação de José Carlos Fernandes. E, por último (7), o cônsul-geral Aristides de Sousa Mendes na fronteira franco-espanhola, salvando refugiados em fuga do regime nazi, tal como desenhado, em 2024, por José Ruy.

José Pestana | 02 junho 2026