COLECIONADORES DE FRONTEIRAS
1. Há colecionadores para todos os gostos.
Os mais azarados colecionam dívidas e desgostos de amor. Outros fazem jus a designação específica: numismatas, se juntam moedas; bibliófilos, caso acumulem calhamaços catados no alfarrabista; lepidopteristas amadores, se arquivam borboletas; e filatelistas, quando se dedicam mais a selo do que a parecê-lo. Não falta quem prossiga a velha tradição de guardar bugigangas e penduricalhos, juntar miudezas e quinquilharias, reunir cacarecos de toda a espécie: conchas e caixas de fósforos, bonecas Barbie e miniaturas de automóveis, pacotes de açúcar, ímanes de frigorífico, pisa-papéis, pardais empalhados, latas de cerveja, relíquias milagrosas, autógrafos de celebridades…
Nos meus verdíssimos anos de catraio, eu tinha como hobby (palavra então desconhecida) colecionar cromos de futebolistas, que se vendiam de forma aleatória em pacotinhos de quatro ou cinco, incluindo os mais desejados – Travassos e Peyroteo, mais tarde destronados por Eusébio e Yazalde.
2. Mudam-se os tempos, mudam-se as manias.
Agora, há quem se dedique a colecionar as marcas de carimbo apostas nos passaportes, atestando a entrada nos mais diferentes países, bem como os vistos (geralmente turísticos) concedidos aos titulares do documento de viagem. Qual o propósito de guardar estes registos gráficos do movimento nas fronteiras?
Nuns casos, têm valor meramente recordatório, uma função mnemónica, avivando lembranças e despertando memórias de uma qualquer viagem. Noutros, mais raramente, pode ser ditado por razões de ordem estética. E noutros, enfim, serve para outorgar ao detentor do passaporte o glamoroso estatuto de globetrotter, de viajante incansável e veterano andarilho.
Por outro lado, o número de países independentes tem-se expandido no último século. Em 1939, o mundo englobava apenas 73 países soberanos. Actualmente, são 193 os países independentes contabilizados pela Organização das Nações Unidas.
3. Alguns factos espelham esta imparável ascensão do “homo viator”, do viajante frequente:
Em toda a sua longa vida, Salazar saiu uma única vez para o estrangeiro, por dois breves dias e de automóvel, para se encontrar com o generalíssimo Franco, em Sevilha, em Fevereiro de 1942. Meio século depois, ao terminar os seus dois mandatos como presidente da República, Mário Soares tinha visitado 57 países e percorrido um total de 992.809 quilómetros, o que equivale a 22 voltas ao mundo.
Foi preciso esperar por 1964 para que um papa fizesse a sua primeira viagem de avião. O pioneiro foi Paulo VI, que visitou cerca de vinte países. Quarenta anos depois, em 2005, ao terminar o seu mandato, o papa João Paulo II tinha visitado 129 países.
4. Com a banalização do transporte aéreo, as distâncias encolheram radicalmente e os antípodas quase se tornaram vizinhos. No século XIX, atravessar continentes consumia largas semanas, senão meses. Uma viagem entre a Europa e a Austrália, que antes demorava mais de um mês (mais de três meses até à abertura do Canal do Suez), completa-se hoje em menos de um dia, o que representa uma redução de 50 vezes, pelo menos, no tempo da deslocação. Não exagera quem disser, no mundo acelerado em que vivemos, que num instante se chega atrás do sol-posto e num piscar de olhos se alcança o mais remoto cu-de-judas.
5. Em 1954, foi fundado nos Estados Unidos o “Traveler´s Century Club”, um selecto clube que só aceita como membros quem já tenha comprovadamente visitado 100 ou mais países do mundo. Actualmente, são já mais de 1.500 os associados desta elite de incansáveis viajantes. Em 1988, um escritor e jornalista finlandês terá sido o primeiro a viajar para todos os países (cerca de 170) então reconhecidos. Se o número de destinos percorridos, por si só, já impressiona, a velocidade das andanças não lhe fica atrás: em 2018, a norte-americana Taylor Demonbreun tinha 24 anos quando completou, ao fim de apenas 544 dias (cerca de ano e meio), a visita à totalidade dos países existentes. Como se não bastasse de bizarria, alguém lançou o desafio de visitar todos os países não apenas uma, mas duas vezes. Uma mão cheia de aventureiros já alcançou esta proeza, iniciada, em 2018, pelo norueguês Gunnar Garfors, que já em 2012 se sagrara a primeira pessoa a visitar (!…) cinco continentes num só dia. E que, em 2014, conseguira entrar em 19 países europeus em apenas 24 horas. Tudo a fazer lembrar Woody Allen: ” Fiz um curso de leitura rápida e li “Guerra e Paz” em 20 minutos. Tem a ver com a Rússia.”
6. Este frenético rodízio de viagens, atreladas umas às outras, virou do avesso a máxima “devagar se vai ao longe”. Quem embarca nesta demencial vertigem já não cultiva o prazer de viajar, de descobrir novas geografias, novas gentes, novos costumes. É outro, e fútil, o propósito destes vagabundos hiperactivos, destes “gloriosos malucos das máquinas voadoras” (para usar o título de um filme dos anos sessenta), destes endiabrados papa-milhas que viajam em desembestado galope, numa canseira, como se não houvesse amanhã…. O que os move não é ver as vistas, mas dar nas vistas. Não é conhecer, mas ser conhecido. A única ambição é superar recordes e inscrever o seu nome no rol de excentricidades do Guiness Book.
7. Más notícias para quem preza colecionar marcas de carimbo nas fronteiras. Em muitos países, os carimbos físicos estão progressivamente a ser substituídos por sistemas biométricos e digitais, que não deixam vestígio nos documentos de viagem. Nos Estados Unidos, por exemplo, as autoridades aduaneiras e a polícia de fronteiras já não carimbam passaportes, por rotina, quer na entrada, quer na saída, dando preferência ao registo electrónico. Também outros destinos, como Singapura, Austrália e Argentina já automatizaram grande parte dos seus controlos de fronteira. Na Europa, mais concretamente no Espaço Schengen, que inclui Portugal, o novo sistema Entry/Exit (EES) está em vias de substituir os carimbos manuais por registos digitais de impressões digitais e reconhecimento facial. Esta alteração estará concluída até Setembro de 2026, o mais tardar.
Zépestana | 04 mar 2026