CRÓNICA NATALÍCIA

1. O Natal – fugaz pausa mágica no frenesim quotidiano, breve parêntese de paz e quimérica promessa de concórdia universal – terá sempre os seus deserdados, sem lugar cativo na mesa da Consoada.
E terá sempre os seus detractores, cépticos militantes, que olham de esguelha para as lendas e narrativas natalícias como histórias da carochinha para mentes infantilóides.
Mas terá sempre, também, os seus nostálgicos defensores, que lamentam, desconsolados, a perda do verdadeiro espírito do Natal e o abastardamento das tradições e rituais ligados a esta época tão especial.
Seja porque sumiu o brinde-surpresa do bolo-rei, igualmente amputado da costumeira fava, destinada ao mais azarado dos comensais.
Seja porque as rabanadas, os coscorões e as azevias vão dando lugar, paulatinamente, ao panettone milanês, entregue ao domicílio por um estafado estafeta paquistanês.
Seja porque a presença na missa do Galo foi trocada pela ida à ginjinha do Barreiro.
Seja porque as lembranças (muitas vezes feitas à mão) que eram dantes deixadas pelo menino Jesus no sapatinho, e passaram depois a ser depositadas pelo Pai Natal em meias penduradas na lareira, estão, aos poucos, a cingir-se à prenda única, comprada à pressa e descartável, oferecida por um anónimo “amigo secreto”.
2. Já em 1901, Machado de Assis, então sexagenário, sentindo-se incapaz de reviver o encantamento mágico que a quadra lhe incutira na infância, questionava, num celebrado soneto: “Mudaria o Natal, ou mudei eu?”
O desvirtuamento do Natal, e do seu espírito seminal – ligado à solidariedade, à reunião familiar, ao afecto, à criação de memórias duradouras – foi sendo acompanhado pela comercialização desenfreada e por um consumismo frenético submetido aos ditames do marketing.
O poeta António Gedeão, já lá vão mais de sessenta anos, retratava assim esta nova e crescente fisionomia mercantil do Natal:
“ … De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético….”
E ainda:
“Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.”
3. Desde então, registaram-se mudanças dificilmente imagináveis pelos nossos pais e avós, sobretudo decorrentes do admirável novo mundo digital e, mais recentemente, das maravilhas algorítmicas alimentadas pela Inteligência Artificial. Alteraram-se os hábitos de consumo e as formas de comunicação, com o advento dos artefactos digitais e da cultura online, dotada de dialeto próprio: logins, hashtags, deepfakes, emojis, links, cookies…
A galopante comercialização do Natal – que se tornou uma verdadeira mina de ouro para muitas multinacionais – e a nossa crescente dependência das ferramentas digitais (já quase não sobrevive quem não disponha de um smartphone carregado de apês, seja para encomendar uma refeição, marcar uma consulta, enviar uma mensagem ou aceder a um jornal online) inspiraram um escritor e antropólogo social britânico, China Miéville, um dos nomes mais importantes da literatura New Weird, a redigir um conto natalício, de contornos orwellianos, decorrido numa sociedade distópica (talvez não muito distante de ganhar forma), onde o Natal foi privatizado, capturado por uma plutocracia digital que detém todos os direitos de exploração dos produtos e serviços respeitantes à quadra festiva.
4. Neste conto, o Natal é mesmo uma marca registada, com patente própria. Por isso, atrelada à palavra, surge sempre a correspondente advertência, um “R” dentro de um círculo. Assim: Natal®.
Uma única empresa digital, a Natividade.Co®, concentra e monopoliza o licenciamento de toda a vasta panóplia de adereços natalícios: azevinho, velas, luzes que piscam, fitas e laçarotes, papel de fantasia, grinaldas, pinhas, berloques e penduricalhos para o pinheiro nórdico…
Festas de Natal? Só com licenciamento prévio ou assinatura digital da referida plataforma (à imagem do que, mutatis mutandis, sucede actualmente com a Netflix, a Spotify ou a Microsoft).
Quem ouse transgredir, usando produtos não licenciados, sujeita-se a multas pesadíssimas, aplicadas pelos fiscais da Natividade.Co®. É o que sucede, por exemplo, a quem cometa o delito de “Presenteamento Subarbóreo Grave”, que consiste em colocar presentes sob os galhos da árvore de Natal sem dispor da respectiva licença.
Claro está que todos estes constrangimentos acabam por causar desagrado e uma revolta popular, com a polícia (mais especificamente o “Esquadrão Natividade”) a dispersar manifestantes com cartazes reclamando o regresso do primitivo Natal (“Pela Paz, Socialismo e Natal” e “Tirem as Mãos da Nossa Época de Festas!”).
Moral da história: enquanto pode e lhe é permitido, goze, caro leitor, o seu Natal, da forma que melhor lhe aprouver e encantar, sem ter de pedir licenças nem autorizações. Porque a liberdade é a melhor prenda que pode encontrar no sapatinho.
São esses os meus votos para quem teve a pachorra de ler esta crónica até ao fim.
Zépestana | 25 dez 2025