FRONTEIRAS AFRICANAS

1. Por norma, as fronteiras são invisíveis, etéreas, imperceptíveis. Exceptuam-se as chamadas fronteiras naturais, coincidentes com acidentes geográficos (rios, lagos, montanhas) e as sinalizadas por altas cercas e muros vigiados.
É assim em todo o lado e África não é excepção.
Não surpreende, por isso, que as populações locais reconheçam os limites entre dois diferentes países através de marcos naturais: um determinado embondeiro, um específico penedo ou uma particular torre de térmitas.
No entanto, muito se engana quem, tomando a nuvem por Juno, deduzir que as fronteiras em África são invariavelmente assinaladas da forma tosca e artesanal retratada na imagem que acompanha esta crónica.
Quem, sem sombra de preconceito, consiga olhar a cores para o continente negro, reconhecerá a modernidade e o qualificado apetrechamento de algumas das suas fronteiras, como as dos aeroportos internacionais de Joanesburgo, de Adis Abeba, de Casablanca ou do Cairo. Ou o avultado investimento realizado em fronteiras terrestres, como a de Beitbridge, entre Zimbábue e África do Sul.
2. Gonçalo Cadilhe – escritor, documentarista e crónico viajante – conhece, como poucos, as fronteiras africanas. Durante oito meses percorreu, por terra, os quinze países e 27 mil quilómetros que separam o Cabo da Boa Esperança do estreito de Gibraltar. Dessa experiência resultou um livro, “África Acima” (editora Contraponto), que vale a pena ler. De seguida ficam transcritos, com a devida vénia, alguns dos apontamentos de viagem de Gonçalo Cadilhe, circunscritos à travessia das fronteiras africanas.
3. Fronteira Congo-Gabão: “A cancela de entrada no Gabão promete. (…) (O Congo) não tinha uma cancela decente de saída do país. Era apenas uma vara de madeira com um balde cheio de areia a servir de contrapeso na extremidade. No Gabão, pelo contrário, espera-nos uma cancela de ferro pintada em vermelho e branco, com dobradiças e cadeado. O oficial congolês que nos abriu a cancela para sairmos do Congo estava ainda em pijama. O oficial gabonês que nos abre a cancela para entrarmos no Gabão está impecavelmente fardado.”
4. Fronteira Camarões-Nigéria: “A estrada internacional entre os dois países é uma estreita pista de terra batida. Que termina na margem dum rio. Não há ponte: ruiu há alguns anos, e assim a deixaram ficar.
O motorista aponta a outra margem: “Nigéria”, diz. “E agora?”, pergunto. “Agora, ou arregaça as calças e atravessa a pé; ou embarca numa piroga e atravessa sentado”, responde, divertido. (…)”
5. Fronteira Mauritânia-Marrocos: “A faixa de fronteira entre Mauritânia e Marrocos é uma das mais desoladas e inquietantes que atravessei na vida. Carcaças de automóveis indicam a berma e o território livre de minas. O posto de migração é uma barraca no deserto. (…).
6. Fronteira Namíbia-Botswana: “Elogio a menina da migração da Namíbia: que nunca tive uma despedida de um país tão bem dada, que quando regressar caso com ela, que lhe deixo uma esferográfica de presente. Sorri, embevecida, e carimba o passaporte. Com tantos elogios de um admirador tão sincero, consigo que não repare que o meu visto já caducou. Fiz mal as contas, ando ilegal na Namíbia há dois dias. “
7. Fronteira Mali-Senegal: “De tantos em tantos quilómetros, um bloco policial. (…)
A cena repete-se pela estrada fora. Descemos todos do autocarro. Os oficiais controlam os documentos de identificação dos passageiros. Os habitantes do Mali para um lado, os do Senegal para outro. Enquanto viajamos ainda no Mali, todos os passageiros senegaleses são obrigados a pagar um “direito de passagem”, todas as vezes. Depois, quando já viajamos no Senegal, será a vez de os passageiros malianos pagarem o “direito de passagem”. Eu, europeu, não pago. Estou, pelos vistos, isento. (…)
Na fronteira dos dois países, a mesma coisa. Mais “irregularidades”, mais “multas”, mais direitos de passagem”, mais dinheiro no bolso dos oficiais. “Ando há meses por África, passei por vários blocos de polícia, mas nunca vi nada assim”, comento com o Sacko. Há uma explicação: “Estamos no fim do Ramadão, e no último dia manda a tradição que se troquem presentes entre famílias e amigos. Os polícias estão a juntar algum dinheiro extra, para as compras.”
8. Fronteira Senegal-Mauritânia: “No lado senegalês, mandam-me entrar para um gabinete apertado, escuro e malcheiroso. Quando a vista se habitua à penumbra, compreendo de onde vem o cheiro pesado. Da cela. Estou numa prisão. Quatro indivíduos apertam-se atrás das grades, num cubículo não muito maior que uma mesa de cozinha. O oficial segue o meu olhar. “Ilegais mauritanos”, explica-se, enquanto me carimba o passaporte.
(…) Não há ponte, apanho, pois, um ferry. Na margem norte, ainda antes de tocar com os pés no solo mauritano, já tenho um oficial à minha espera. “Trato eu de todas as formalidades, não te preocupas”, assegura-me. Que formalidades? Desaparece com o meu passaporte. Espero. Canso-me de esperar. Vou procurá-lo. Está na conversa com dois amigos. “Então?”. Tem qualquer coisa para me dizer: o preço que tenho de pagar para reaver o meu passaporte. “Pelas formalidades”. Sorrio, mostro-lhe que sorrio. Como quem diz: ando por África acima há oito meses, tenho a escola toda para lidar com oficiais da tua laia.
Digo-lhe que não pago nem um tostão. Mas, se quiser, tenho um presente. Uma caixinha de cigarrilhas francesas. (…) Estendo-a ao oficial. Também não fuma. Olha para o meu presente com ar enjoado. “Não tens nada melhor?”, pergunta-me.
Mostro-me ofendido com a sua recusa. “É o que há. Não queres, paciência.” (…) Dispara: “Calma, o meu irmão fuma.”…
9. Fronteira Congo-Gabão – “Espero que os funcionários da alfândega revistem as bagagens para podermos sair do Congo. Os guardas-fiscais ignoram os meus companheiros de viagem e mandam-me entrar para o edifício da alfândega, uma choupana com tecto de zinco. “Cinco mil francos de direito de passagem”, pedem-me. São oito euros. “Temos um problema”, respondo. Eles olham-me, curiosos e inquietos. “Quando me foi concedido o visto, foi-me explicado que não precisava de pagar mais nada.”
Começou uma longa discussão com três polícias. Um deles ainda está de pijama, o outro tem uma T-shirt dos Sex Pistols. (…) Enumero os meus argumentos: que só pago contra recibo, que sou jornalista, que nunca paguei para sair de um país, que o visto custou cem dólares e não deixo nem mais um tostão na República do Congo. (…)
Ao fim de meia hora, o Anulinga perde a paciência. Exclama para os colegas: “Tem a pele branca, mas é casmurro como um negro.” Aceito a observação como um elogio. Sorrio-lhe. “Podes ir embora, não precisas de pagar nada. Mas deixa-nos ao menos um presente.” Tiro do fundo da mochila o frasquinho de pastilhas de alho Dr. Rogoff. Estendo uma a cada um. Explico, baixinho: “Potência sexual.”
Os três arregalam os olhos em simultâneo e recolhem as pastilhas. Um deles prepara-se para engolir imediatamente a sua. “Agora não”, quase grito. “Uma hora antes de…”, deixo a frase em suspenso e imito o avô do Fellini em Amarcord: três assobios curtos e agudos, o pulso fechado que se move para cima e para baixo ritmadamente. Percebem.
(…) Junto-me aos restantes passageiros na carrinha, que me sorriem com compreensão resignada. Um guarda-fiscal ainda me grita: “E traz mais pílulas destas.”. Não: para a próxima, trago-te de estricnina laxativa. “
José Pestana | 08 junho 2026