PASSAPORTES: O ESTADO DA ARTE

1. O passaporte é um documento de viagem oficial, emitido pelo governo de um país, que identifica o titular e solicita permissão para que este possa atravessar fronteiras internacionais.
2. Tempos houve em que o passaporte se apresentava como um documento sóbrio, de formato espartano, baço e desinteressante, sem adornos nem arrebiques. Pouco mais continha para lá da descrição física do seu titular.
3. Hoje, tudo mudou. Muitos dos actuais passaportes integram uma profusão de dados, exibem cores vibrantes, despertam curiosidade, são visualmente apelativos e tão ricamente ilustrados como os medievais “Livros de Horas”, que ostentavam floridas cercaduras e garridas iluminuras, minuciosamente trabalhadas.
4. Numa época marcada pelo crescente número de pessoas que viajam, mas também pelo acentuado declínio do envio de correspondência pelos correios, os passaportes passaram de algum modo a assumir a função de representação identitária nacional que antes cabia aos selos postais.
Uns e outros (passaportes e selos) são usados como afirmação de soberania, recorrem a inovadoras técnicas de impressão e circulam pelos quatro cantos do mundo como verdadeiros “embaixadores” dos respectivos países emissores, projectando a identidade de cada um deles para lá das suas fronteiras.
5. Nos modernos passaportes, as páginas interiores (destinadas a receber vinhetas de vistos e carimbos de entrada/saída), antes devolutas, são agora preenchidas por ilustrações coloridas que mobilizam a atenção e despertam o interesse sobre o país outorgante, ao darem a conhecer as suas paisagens, a sua fauna, a sua flora, os seus modos de vida, tradições, valores, símbolos nacionais e práticas culturais.
Mais do que um mero documento administrativo, o passaporte tende a ser a expressão da identidade do país emitente e um seu privilegiado divulgador.
6. Numa hábil estratégia de comunicação e marketing político, visando promover a mais atraente imagem dos seus países, os governos servem-se dos passaportes que editam, convertendo-os em vistosos portfólios ou chamativas vitrines.
É por isso que as gravuras (visíveis a olho nu ou perceptíveis à luz ultravioleta) tendem a gravitar em torno de alguns tópicos predominantes, que favorecem uma aprazível imagem dos países retratados: os fiordes (Noruega), as montanhas rochosas (Canadá), a Grande Muralha (China), o Monte Fuji (Japão); os arranha-céus (Hong-Kong); os descobrimentos e grandes vultos da literatura, como Camões e Pessoa (Portugal); o canguru e a avestruz (Austrália), as renas e alces (Finlândia)…
7. Estes novos passaportes não são apenas pequenas obras de arte. O seu aprimorado design associa ao refinamento estético múltiplos apetrechos de segurança, de última geração, incorporando tecnologias inovadoras que asseguram a autenticidade do documento e preservam os dados pessoais do titular: micro-impressões, marcas d´água, hologramas, gravação a laser, tintas reagentes à luz ultravioleta, códigos de barras, filtros de descodificação, chip electrónico…
8. O passaporte da Bélgica (gravura 1, ao alto, à esquerda) merece particular menção, por se tratar de um documento de viagem com incomparável Imaginação e carácter lúdico.
Num país que muito boa gente só conhece pelas cervejas e batatas fritas, o passaporte belga rende justa homenagem a um dos produtos de excelência da respectiva cultura nacional: a chamada “Nona Arte”. Catorze diferentes personagens de banda desenhada surgem nas páginas interiores do passaporte, consagrando a mestria dos criativos autores belgas de “quadrinhos”: Tintin, Spirou, os Smurfs, Blake e Mortimer, Lucky Luke (o cowboy solitário que dispara mais rápido que a própria sombra) e os Irmãos Dalton, o Marsupilami, Suske e Wiske…
9. Pouco ortodoxo, para dizer o mínimo, é o novo passaporte norte-americano (gravura 2, ao alto, à direita), a emitir no âmbito da celebração do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos. Não porque desconsidere o estado da arte em matéria de segurança: o documento mantém inalteradas as especificações técnicas que tornam o passaporte americano um dos mais seguros do mundo.
Mas pela bizarra circunstância de fulanizar a entidade emissora, na pessoa de Trump, que assume um protagonismo individual sem qualquer precedente neste tipo de documento. De facto, na respectiva contracapa interior figura o rosto do actual presidente (com olhar severo e cara-de-poucos-amigos), seguido da sua assinatura, em dourado, numa implícita atribuição da paternidade do documento à sua pessoa e não ao Estado norte-americano ou às suas instituições.
10. Este é o mais recente exemplo da despudorada estratégia de empolamento e ampla disseminação da imagem de Donald Trump, digna de uma tropical república das bananas, e que só encontra paralelo no exibicionismo narcisista dos caudilhos de outros tempos: césares e condottieri, generalíssimos, Übermenschen, pais-dos-povos e dinossauros excelentíssimos de má memória.
11. Invariavelmente, Donald Trump cede à tentação de deixar a sua marca pessoal, a sua indelével pegada, em tudo o que mexe, incluindo nos passaportes. O seu nome surge gravado a esmo, e a sua imagem estampada a torto e a direito, em todo o tipo de edifícios e empreendimentos governamentais — do “Kennedy Center ” (doravante “Trump e Kennedy Center”) ao “Instituto da Paz dos EUA”, passando por bilhetes de acesso aos parques nacionais (“Trump-Branded National Parks Pass”), contas-poupança (“Trump Accounts”), uma nova classe de navios de guerra (“classe Trump”), vistos de residência para milionários (“Trump Gold Card”), moedas de ouro… Sem esquecer três auto-estradas “Trump” (Flórida, Carolina do Sul e Oklahoma), um aeroporto internacional “Trump” (Palm Beach), uma ponte “Trump” (Tennessee), o faraónico “Salão de Baile Trump” (400 milhões de dólares para uma pista de dança do tamanho do Rossio) e o mastodôntico “Trump Arch”, arco do triunfo a erguer em Washington, de proporções insanas, com altura equivalente à de um prédio de 25 andares.
12. Cabe perguntar: espremidos dois séculos e meio da sua história, é só isto que a América tem para mostrar? Só este rebarbativo ancião, de má catadura e olhar fulminante, em pose de “eu-é-que-sou-o-presidente-da-junta! ”…?
Onde se expressa, neste documento, a essência da identidade americana? Onde se reconhece o país de paisagens deslumbrantes, pujante cultura e múltiplos talentos, que acumulou mais de 400 prémios Nobel, abarbatou mais de 2600 medalhas olímpicas e conquistou mais de 3000 Óscares?
Onde se evoca e exalta, neste passaporte, a América de Hemingway, Mark Twain, Scott Fitzgerald e Herman Melville? De Thomas Edison, Benjamin Franklin e dos Irmãos Wright? De Luther King e Rosa Parks? De Andy Warhol, Edward Hopper e Frank Lloyd Wright? De Leonard Bernstein, Jessye Norman e Benny Goodman? De Fred Astaire e Ginger Rogers? De Buster Keaton, dos Irmãos Marx e Woody Allen? De John Wayne, James Stewart, Morgan Freeman e Tom Hanks? De Scott Joplin, Gershwin, Cole Porter e Miles Davis? De Bob Dylan e Joan Baez? De Louis Armstrong e Bessie Smith? De Elvis e Marilyn Monroe? De Billy Wilder, Orson Welles, Walt Disney, Spielberg, Kubrick e Scorcese? Dos Beach Boys, de Frank Zappa e Jimi Hendrix? De Isadora Duncan e Martha Graham? De Michael Jordan e Muhammad Ali?…
13. Dois distintos passaportes, o belga e o norte-americano, tão diferentes como o trigo e o joio! Um deles é o criativo resultado de uma estratégia inteligente de soft power, de projeção de valores e de cultura nacional. O outro parece decorrer de mero capricho narcisista, esgotando-se numa despropositada autoadulação. Um deles cativa, divulga e provoca empatia. O outro intimida e causa urticária.
A qual deles serve a infausta carapuça?
Decida o leitor.
José Pestana | 20 maio 2026