POEMA “FRONTEIRA”
“De um lado terra, doutro lado terra;
De um lado gente; doutro lado gente;
Lados e filhos desta mesma serra,
O mesmo céu os olha e os consente.
O mesmo beijo aqui; o mesmo beijo além;
Uivos iguais de cão ou de alcateia.
E a mesma lua lírica que vem
Corar meadas de uma velha teia.
Mas uma força que não tem razão,
Que não tem olhos, que não tem sentido,
Passa e reparte o coração
Do mais pequeno tojo adormecido.”
(“Antologia Poética”, Lisboa, Dom Quixote, 8ª ed., 2017, p,71)
© Miguel Torga/SPA, Lisboa, 2026
1. A leitura deste belo poema de Miguel Torga traz-nos à memória um discurso de John Kennedy, em 1961, sobre a relação, hoje tão escusadamente conturbada, entre o Canadá e os Estados Unidos da América, que partilham uma fronteira comum:
“A Geografia tornou-nos vizinhos. A História converteu-nos em amigos. A Economia tornou-nos parceiros… (…) O que nos une é bem maior do que aquilo que nos divide.”
(Noutro contexto, quarenta anos depois, Carlos Tê, pela voz de Rui Veloso (“Primeiro Beijo”), retomaria o mote: “muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa.”)
2. Neste poema, Torga exalta a identidade profunda, primordial e espontânea entre os dois lados da fronteira, em contraponto à índole forçada, etérea e fictícia da linha que demarca o território de países contíguos. O poeta sublinha que a natureza não respeita nem se submete a fronteiras arbitrariamente traçadas pela mão humana.
O que prevalece, acima do artificial delineamento da linha fronteiriça, discricionariamente imposto, é a continuidade do meio ambiente (a mesma terra, a mesma serra, o mesmo céu, a mesma lua) e a solidária proximidade das comunidades que vivem dum lado e do outro do traço divisório.
A fronteira não consegue romper aquilo que, por natureza, é inseparável: as duas e quase simétricas metades de um mesmo todo (natural e cultural), a comunhão fraterna de populações confinantes, que partilham amizades, crenças comuns, hábitos análogos, tradições afins, memórias semelhantes.
3. De facto, a fronteira não tem de ser necessariamente olhada como local de antagonismo, de polarização, de clivagem, de segregação do “outro”, de exacerbada afirmação identitária. Pode representar, pelo contrário, um espaço de interface, de congregação, de convergência, mais marcado pelo entranhamento do que pelo estranhamento.
4. A reflexão que Miguel Torga desenvolve nestas três estrofes ajusta-se, de um modo geral, a qualquer fronteira. Mas ganha particular pertinência no tocante à fronteira entre Portugal e Espanha, porque o poeta sempre foi um firme defensor da Ibéria. Afirmava, até, que embora a sua pátria cívica acabasse na fronteira (mais precisamente em Barca de Alva, no norte do distrito da Guarda), a sua pátria telúrica terminava apenas nos Pirinéus.
5. Ponderando sobre a questão ibérica e o “chão comum” peninsular, Torga comentou que “a ideia de nação” “não é de certeza a última palavra em matéria de arrumação do mundo”. E profetizou que “uma noção mais ampla e profunda de comunidade de sentimentos e de interesses há-de substituir-se, inevitavelmente, a esta actual fraternidade murada e compartimentada.”
O sonho platónico do derrube dos muros, do fim da compartimentação dos povos e da consequente extinção das fronteiras, representa um anseio legítimo e uma aspiração generosa.
A verdade é que, em matéria de organização espacial do mundo e de ordenamento das relações internacionais, bem como de uma articulada estratificação de múltiplas soberanias, bem se poderá dizer das fronteiras interestaduais – parafraseando aquilo que Churchill afirmou sobre a democracia -, que são “o pior dos sistemas, com excepção de todos os outros”.
Pese embora a profusão de estigmas e labéus que lhes possam ser apontados, está ainda por inventar melhor – e menos conflituosa – forma de permitir que cada Estado mantenha, em acordo com os demais, o seu próprio sistema institucional, judicial, económico e cultural.
6. Miguel Torga, pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha, foi um dos mais notáveis poetas e escritores portugueses do século XX. Nasceu em Trás-os-Montes, em 1907 e faleceu em Coimbra, em 1995, deixando uma vastíssima obra literária.
Amante da terra e da natureza, orgulhoso das suas raízes transmontanas, “poeta aldeão” e “montanhês por devoção”, português genuíno e europeu convicto, ”repórter inquieto dum quotidiano sem fronteiras”, inconformado perante a injustiça e lúcido questionador do seu tempo, o escritor assumiu uma corajosa intervenção cívica durante a ditadura e revelou excepcional envergadura ética e moral.
Zépestana | 28 jan 2026