PUXANDO A BRASA À NOSSA SARDINHA
1. A sardinha, cujo nome se inspira, muito provavelmente na ilha mediterrânica da Sardenha, é presença constante em todos os mares desde há centenas de milhões de anos. De pequena dimensão, cor de prata e corpo alongado, é uma das espécies mais frequentemente pescadas no litoral atlântico português, razão pela qual lhe chamam “rainha da costa”.
2. Já era assim há um século, com a sardinha, a democrática sardinha, a chegar à mesa das famílias portuguesas, das mais abastadas às mais modestas:
“…Não há terriola de seis cavadores submersa pelos montes, onde a sardinha não chegue – viva da costa. (…) Comem-na assada na brasa os trabalhadores da estrada e os homens esfaimados do campo com um pedaço seco de broa. De Inverno é seca, mas pelo S. João pinga no pão. No norte, o lavrador espera-a para o jantar: é o seu melhor conduto. Os pobres fregem-na numa gota de azeite, e salgada ou saltando no cesto, fresquinha da barra, viva de Espinho, gorda, antes da desova, sem cabeça e escruchada, com a guelra em sangue, ou laivos amarelos da salmoura, constitui um manjar para pobres e para ricos. Entra em todas as casas. Há quem goste dela de caldeirada e quem a prefira simplesmente assada deixando cair no lume a gordura que rechina. Há-os que só saboreiam a de lombo gordo e preto, e os que acham muito melhor a miúda, que se chama petinga e que se devora com escama e tudo, afirmando com uma convicção respeitável que a mulher e a sardinha quer-se da pequenina…”
(Raul Brandão, in “Os Pescadores”, 1923.)
3. Nos nossos dias, já não há canastras de sardinhas, nem sobreviveram as varinas que, de pé descalço, as carregavam à cabeça. Nem tampouco resistiram os pregões que anunciavam a sua chegada. Mas subsiste, ainda hoje, neste pequeno país “à beira-mar plantado”, a paixão nacional pela sardinha, que só encontra rival no bacalhau salgado seco. Não surpreende: os portugueses devoram anualmente cerca de 600 mil toneladas de pescado e Portugal é o país da União Europeia com o maior consumo de pescado per capita e o terceiro maior a nível mundial, atrás apenas da Islândia e do Japão.
4. Para lá da sua relevância económica (basta pensar na indústria conserveira e nas exportações) e da sua importância como pilar da gastronomia lusa, a sardinha encarna sobremaneira a nossa cultura popular, com ubíqua aparição em ditos e provérbios, no artesanato e no cancioneiro. Com Rafael Bordallo Pinheiro, as sardinhas – de faiança, neste caso – alcançaram projeção nas artes
plásticas, como artefactos decorativos de excelência. Decorrido mais de um século, a sardinha ainda hoje se mantém como leitmotiv, tema inspirador de pintores, designers e escultores. Assim o atesta, por exemplo, o trabalho recente de Joana Vasconcelos, que criou uma taça em cerâmica, intitulada “Surf”, aliando o subtil sentido de humor do mestre Rafael à contemporânea linguagem estética da autora, do que resultou um círculo de 22 prateadas sardinhas, cada uma delas carregando no dorso uma rã surfista, de cor verde.
5. Reconhecendo a importância da sardinha como ícone cultural e um dos mais vivos símbolos da identidade portuguesa, em particular do imaginário dos lisboetas, a EGEAC, empresa municipal criada pela Câmara Municipal de Lisboa para promover na cidade as várias vertentes da actividade cultural, lançou em 2011 uma iniciativa de indiscutível sucesso: uma competição anual (“Concurso Sardinha Festas de Lisboa – Sardinha Contest”) que desafia a criatividade de ilustradores, designers e artistas plásticos de todo o mundo, convidados a preencher – com imaginação, bom gosto e liberdade temática -a silhueta de uma sardinha. É este o único requisito que vincula os concorrentes: as ilustrações a concurso têm de representar uma sardinha.
6. No conjunto das quinze edições anuais até agora realizadas, submeteram-se à ponderação do júri perto de 90 mil ilustrações, provenientes de cerca de 75 diferentes países. Muitas das obras premiadas (pela sua originalidade, qualidade técnica e estética) podem ser apreciadas no livro «+500 Sardinhas 2014-2017», edição EGEAC/INCM.
Nalguns casos, as ilustrações têm propósitos meramente decorativos ou lúdicos, de simples diversão. E abordam assuntos tão diversos como os arraiais, os bairros populares, a moda, o mar, o fado ou a gastronomia. Noutros casos, contudo, as gravuras consistem num comentário crítico à actualidade – em forma de metáfora visual ou alegoria plástica – constituindo uma reflexão responsável sobre temas sérios e candentes: os direitos humanos, a poluição, a condição humana, a globalização…
São disso exemplo as três ilustrações que acompanham esta crónica, extraídas da supracitada publicação.
7. Numa delas (1), da autoria de Marta Simões, o espaço definido pelos contornos da sardinha surge preenchido por carimbos de vistos, numa inequívoca referência ao exponencial incremento das viagens e do turismo. De facto, se o século XX se consagrou como o século da mobilidade humana, as mais recentes décadas reforçam essa tendência. A cada novo dia, cresce o vaivém de pessoas, cruzando fronteiras entre países e continentes. Em 2025, os aeroportos portugueses movimentaram 72,5 milhões de passageiros, quase duplicando o tráfego desde há dez anos. A nível mundial, o número de passageiros transportados por avião ronda os 10 mil milhões em cada ano. E o número de turistas internacionais, em 2025, foi estimado em 1,52 mil milhões.
8. Nas outras duas gravuras, ambas da autoria de Dmitry Timofeichev, o formato da sardinha serve outro desígnio: aludir a outras – e preocupantes – modalidades de mobilidade humana. Na ilustração assinalada com o algarismo 2, evoca-se o uso das fronteiras marítimas por imigrantes indocumentados, em busca de melhores condições de vida, com recurso a embarcações precárias, resultando em frequentes tragédias. Embora episódios desta natureza ocorram em diferentes áreas marítimas (no Caribe, no Golfo do México, no Canal da Mancha), é sobretudo no Mediterrâneo que se regista um mais intenso tráfego deste tipo, sobretudo nas rotas com origem em Marrocos e Argélia (em direcção a Espanha), na Líbia e Tunísia (em direcção a Itália e Malta) e na Turquia (com destino a Chipre, Grécia e Bulgária). O Mediterrâneo serve de fronteira marítima a 22 países de três continentes (5 africanos, 5 asiáticos e 13 europeus). A desesperada tentativa de acesso aos países europeus torna estas rotas as mais perigosas e letais do planeta, com um mínimo de cerca de duas mil vítimas anuais, entre mortos e desaparecidos.
9. Finalmente, a terceira ilustração (3) representa um refugiado, transportando às costas os seus escassos pertences e uma criança, simbolizando os milhões de pessoas que, em todo o mundo, são forçadas a abandonar as suas casas, em busca de protecção, escapando à guerra ou a perseguições. É o que actualmente sucede a centenas de milhar de famílias no Líbano e no Irão, como antes ocorreu na Síria e no Sudão, na Venezuela ou em Mianmar. Em 2024, eram mais de 123 milhões as pessoas que se encontravam involuntariamente deslocadas (nesse número se incluindo as deslocadas no interior do seu próprio país ou num outro, as refugiadas e as requerentes de asilo).
Zépestana | 31 mar 2026