UMA FRONTEIRA INCOMUM
Nos dias que correm, a imagem das fronteiras é frequentemente associada a barreiras físicas intransponíveis e a rígidas infraestruturas plantadas no terreno: cancelas, estacas, vedações e gradeamentos, cercas metálicas, muros, torres de vigilância, postos de controlo…
No entanto, vistas as coisas mais de perto, a realidade mostra que nem sempre assim foi. E nem sempre assim é.
De facto, a linha de fronteira pode diluir-se na paisagem, despojada de aprestos securitários ou desprovida de ostensivas barricadas.
Ainda hoje assim sucede, a título de exemplo, na fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos da América, mais precisamente emBeebe Plain, não longe de Montreal.
Praticamente imperceptível, a linha de fronteira entre ambos os países corre exactamente, de leste para oeste, ao longo dos 610 metros da rua que atravessa a localidade.

“Canussa Street” é o nome dessa artéria, assim chamada por fundir as abreviaturas de Canadá (Can) e Estados Unidos (USA).
Todos os edifícios que, a norte, ladeiam essa rua integram-se no Canadá, mais exactamente na província de Quebec.
E todos aqueles que se encontram do lado oposto situam-se nos Estados Unidos, mais precisamente no Estado de Vermont.
O único vestígio comprovativo da existência da fronteira é o traço contínuo, de cor amarela, no eixo da via, no centro do asfalto.
Por que carga de água, perguntará o leitor, alguém se lembraria de assentar uma fronteira em local tão improvável e desconcertante como é o meio duma estrada?
Segundo reza a lenda, a escolha do traçado coube aos agrimensores incumbidos, em 1771, de estabelecer as demarcações do território.
Esquecidos da sensata distinção entre lazer e afazer (“serviço é serviço, conhaque é conhaque”…), ter-se-ão incumbido da topográfica tarefa completamente embriagados, logo após emborcarem doses cavalares de aguardente de batata.
Se Deus escreve direito por linhas tortas, este patusco grupo de borrachos seguiu o caminho inverso, optando por rascunhar uma linha direita, que ainda hoje subsiste inalterada.
Durante anos e anos, os residentes em Beebe Plain habituaram-se a cruzar a estrada com natural informalidade: nada de mais banal, para uma dona de casa canadiana, do que dirigir-se descontraidamente à residência da vizinha americana para lhe pedir um raminho de salsa e dar dois dedos de conversa. Sem sequer se dar conta da permuta de país e da mudança de jurisdição.
Esta tranquila coabitação entre os nacionais de países contíguos encontra natural expressão na partilha de património comum, de que é eloquente exemplo a biblioteca pública local – e sala de concertos –, ao serviço de uns e de outros.
O edifício da “Haskell Free Library & Opera House” – mandado edificar, em 1901, por uma abastada cidadã canadiana, em homenagem ao seu defunto marido americano – apresenta uma característica singular: é atravessado, de lado a lado, pela linha de fronteira, o que o torna a única biblioteca binacional do mundo, fisicamente repartida por dois diferentes países.
Em tom de gracejo, comenta-se até que esta é a única biblioteca dos Estados Unidos que não tem livros (as estantes situam-se todas do lado canadiano) e a única sala de concertos que não dispõe de palco (só a plateia, e não o palco, se acha do lado americano).
Dentro do edifício, a circulação é livre. Porém, dado que não se trata de um posto oficial de fronteira, importa respeitar uma regra: ao sair, cada visitante tem de retornar imediatamente ao país de onde proveio (Canadá ou Estados Unidos).
Pintada de negro no soalho da biblioteca, salta à vista uma linha que assinala a fronteira. E não por acaso: quando, há anos, ocorreu um pequeno incêndio no interior do edifício, este balizamento foi de grande utilidade para resolver o imbróglio entre duas companhias de seguro, uma canadiana e outra americana, cada uma protegendo a sua própria fatia do imóvel.
Nas duas últimas décadas, a situação alterou-se substancialmente, pela acção cumulativa de três acontecimentos: os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2011, a pandemia de Covid-19 e as restritivas políticas migratórias de Donald Trump. Tudo a determinar um maior rigor no controlo da transposição das fronteiras. As áreas tradicionalmente menos patrulhadas, entre as quais se inclui Canusa Street, passaram a respeitar critérios mais firmes e a conhecer vigilância redobrada.
Na aparência, a linha de fronteira permanece intocada e uma simples rua continua a dividir os territórios dos dois países vizinhos. Cruzar a rua, mesmo a pé, não é, como nunca foi, legalmente permitido, conquanto tivesse sido largamente tolerado em benefício dos residentes locais. Só que agora essa prática é continuamente fiscalizada e qualquer travessia, fora do “checkpoint” autorizado, é processada como travessia ilegal, passível de resultar em detenção e multa avultada.
Para evitar abusos, as próprias regras de funcionamento da biblioteca foram robustecidas, com a introdução de portas de acesso diferentes para residentes americanos e residentes canadianos, sobretudo após ter sido extraditado para os Estados Unidos um suspeito de utilizar a casa de banho da instituição para traficar armas de um país para o outro.
Lá como cá: casa arrombada, trancas à porta…
Zépestana | 11 fev 2026